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Cerrado já perdeu área maior que Goiás e cenário ameaça o agro

Cerrado já perdeu área maior que Goiás e cenário ameaça o agroAvanço do desmatamento se concentra agora no Matopiba. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Resumo:

  • Estudo da Embrapa em lavouras do sudoeste de Goiás identificou 27 registros inéditos de abelhas associadas à cultura da soja no Brasil. As espécies já eram conhecidas pela ciência, mas nunca haviam sido citadas visitando as flores da oleaginosa no país.
  • A polinização por abelhas nativas pode aumentar o peso dos grãos em média 7%. Como a soja se autopoliniza, o ganho vem da polinização suplementar, que resulta em maior fertilização de óvulos e grãos mais pesados.
  • Quanto mais distante da mata nativa, menor a abundância de abelhas encontradas nas flores de soja. Os fragmentos de Cerrado fornecem abrigo, locais de nidificação e alimento nos períodos em que a cultura não está florescendo.
  • O trabalho documentou 40 espécies de abelhas nas áreas cultivadas do sudoeste goiano. Até 2018, revisões científicas acumuladas registravam apenas 12 espécies nativas associadas, de alguma forma, à soja no território brasileiro.
  • Das 764 abelhas coletadas, 89% eram nativas do Brasil e 11% pertenciam à Apis mellifera, espécie exótica criada para produção de mel. A maior parcela das espécies (44,7%) tem hábitos solitários e não pode ser manejada em caixas.

 

Por André Garcia

O Cerrado perdeu 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, uma redução de 34% em relação à cobertura existente no início do período. A área perdida em quatro décadas equivale a cerca de uma vez e meia o território de Goiás, conforme dados divulgados pelo MapBiomas nesta quarta-feira, 12/8.

De acordo com o levantamento, o bioma chegou a 2025 praticamente dividido ao meio: a vegetação nativa cobre 49,6% do território, enquanto 49,5% são ocupados por pastagens, agricultura, silvicultura, áreas urbanizadas, mineração e infraestrutura de geração de energia.

O cenário é resultado principalmente do avanço da agropecuária nas últimas quatro décadas. Agricultura e pastagem responderam, juntas, por 81% da expansão das áreas destinadas a atividades humanas no período, pressionando remanescentes de vegetação que têm papel na regulação do clima e na disponibilidade de água.

“O Cerrado sustenta a água que abastece rios, cidades e a produção agrícola brasileira. No entanto, a expansão da agropecuária continua avançando sobre os remanescentes de vegetação nativa que garantem esses serviços ambientais”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Segundo ela, a redução da vegetação tem impactos que atingem também a produção rural. “Perder essas áreas compromete a disponibilidade de água, altera o regime de chuvas e aumenta a vulnerabilidade da própria agropecuária às mudanças climáticas.”

Agricultura ganhou 24,7 milhões de hectares

As pastagens ocupam atualmente 27% do Cerrado e continuam sendo o principal uso da terra no bioma. A agricultura responde por outros 14,8%. Foi a agricultura, porém, que apresentou o maior crescimento nas últimas quatro décadas: incorporou 24,7 milhões de hectares desde 1985, enquanto as pastagens avançaram 17,3 milhões.

Juntas, agricultura e pecuária responderam por 81% da expansão das áreas destinadas a atividades humanas no período. No total, essas áreas cresceram 51,4 milhões de hectares, alta de 108% em relação a 1985.

Pressão se deslocou para o norte do Cerrado

Entre 1985 e 2005, a expansão agropecuária esteve concentrada principalmente nas regiões central e sul do Cerrado, incluindo Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná. Naquele período, predominava a abertura de pastagens.

Nas décadas seguintes, essa pressão se deslocou para o norte e nordeste do bioma. Entre 2020 e 2025, a perda de vegetação nativa voltou a se intensificar e atingiu uma média de 1,4 milhão de hectares por ano, com as principais frentes de conversão concentradas em Bahia, Tocantins, Maranhão e Piauí.

“O deslocamento das principais frentes de expansão para o norte e nordeste do Cerrado representa não apenas uma mudança na localização da conversão de vegetação nativa, mas também altera a configuração da paisagem”, explica Bárbara Costa, analista de pesquisa do IPAM.

Matopiba concentra 66% das perdas recentes

O avanço mais recente está concentrado principalmente no Matopiba, região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e considerada uma das principais fronteiras agrícolas do país. A região ainda abriga 48% de toda a vegetação nativa remanescente do Cerrado, mas respondeu por cerca de 66% da perda líquida registrada no bioma nos últimos cinco anos.

A expansão agrícola também foi intensa. Em 1985, as lavouras ocupavam cerca de 200 mil hectares no Matopiba. Quatro décadas depois, chegaram a 6,8 milhões de hectares — uma área 24 vezes maior. Atualmente, a região concentra 22% de toda a área agrícola do Cerrado.

Segundo o pesquisador do IPAM Dhemerson Conciani, a expansão sobre os planaltos de maior aptidão agrícola já provoca alterações no clima regional e contribui para a intensificação de eventos extremos, com efeitos que podem atingir a própria produção.

“Assim, o desenvolvimento de um modelo econômico para o Matopiba é uma oportunidade estratégica para que o Brasil demonstre ao mundo que é possível conciliar conservação, produção e crescimento econômico”, acrescenta.

 

Saiba mais

O que é a Coleção 11 do MapBiomas – A Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do MapBiomas reúne dados sobre as transformações do território brasileiro entre 1985 e 2025, completando uma série histórica de 41 anos. Nesta edição, o levantamento identifica 33 classes de cobertura e uso da terra e passa a incorporar categorias como marisma, savana alagada, usinas fotovoltaicas e parques eólicos. Os mapas têm resolução espacial de 30 metros e permitem acompanhar anualmente as mudanças ocorridas em todos os biomas brasileiros.

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