Resumo:
- Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás somam R$ 6,7 bilhões por ano em potencial de mercado de Cotas de Reserva Ambiental (CRA). É um terço dos R$ 20,6 bilhões estimados para Amazônia e Cerrado em estudo da CNI com o Ipam.
- Mato Grosso lidera entre os estados, com R$ 2,8 bilhões por ano. Mato Grosso do Sul tem R$ 2,5 bilhões e Goiás, R$ 1,4 bilhão.
- Mato Grosso do Sul tem mais de 60% dos imóveis com CAR analisado e índice de integridade fundiária de 0,79, o segundo maior do Cerrado.
- Em Mato Grosso e Goiás, a análise do CAR ainda não acompanha o volume de produção, segundo o estudo. Mato Grosso tem integridade fundiária de 0,55.
- O cálculo usa valor de referência de R$ 500 por hectare ao ano e considera todo o excedente negociado. O Pantanal não entra na análise.
Por André Garcia
A vegetação nativa preservada além do mínimo exigido pelo Código Florestal pode movimentar R$ 20,6 bilhões por ano na Amazônia e no Cerrado por meio das Cotas de Reserva Ambiental (CRA). O título permite que o produtor com excedente de vegetação venda a cota a quem tem déficit de Reserva Legal, que regulariza o imóvel sem perder área da produção.
A estimativa é de estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), divulgado nesta quarta-feira, 23/9, e indica oportunidade para o Centro-Oeste: Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás somam R$ 6,7 bilhões por ano, um terço do total.
“Implementar o Código Florestal é também uma estratégia de competitividade. O desafio agora é transformar informações territoriais em prioridades, investimento e segurança para as cadeias produtivas”, diz Jarlene Gomes, pesquisadora do Ipam que coordenou o estudo, em texto divulgado pelo instituto.
Para estimar o mercado, o estudo adotou um valor de referência de R$ 500 por hectare (ha) ao ano, sem informar a origem do parâmetro. Também foram cruzados dados do Termômetro do Código Florestal, do MapBiomas e do Cadastro Ambiental Rural (CAR). A análise cobre só a Amazônia e o Cerrado. O Pantanal ficou de fora.
Mato Grosso: o maior potencial do País
De acordo com a publicação, Mato Grosso tem o maior potencial do País, com R$ 2,8 bilhões por ano. Na sequência vêm Minas Gerais (R$ 2,7 bilhões), Piauí (R$ 2,6 bilhões) e Mato Grosso do Sul (R$ 2,5 bilhões). Goiás soma R$ 1,4 bilhão.

Fonte: Ipam (2026) com base nos dados do Termômetro do Código Florestal (2025).
Mato Grosso é o único estado da região com áreas nos dois biomas analisados. Na porção amazônica, concentra 25% do excedente de vegetação nativa do bioma, atrás apenas do Pará, com 36%.
“Para a indústria, trata-se de uma oportunidade concreta para reduzir custos de compliance, atrair investimentos ESG e monetizar a conservação”, escreve Roberto Muniz, diretor de relações institucionais da CNI, no resumo executivo do estudo.
Vale destacar que os números representam o potencial econômico, não receita nem volume negociado, e que o cálculo considera que todo o excedente seria vendido.
Análise do CAR define quem sai na frente
A emissão da cota exige a inscrição do imóvel no CAR e um laudo que comprove o excedente, feito pelo órgão ambiental ou por entidade credenciada. Segundo o estudo, CAR analisado e situação fundiária resolvida criam condições mais favoráveis para a compensação por CRA e para a atração de investimento privado.
Nesse cenário, alguns gargalos ficam mais evidentes. Em Mato Grosso e Goiás, grandes produtores de soja e carne, a análise do CAR ainda não acompanha o volume de produção, de acordo com o levantamento. Mato Grosso tem índice de integridade fundiária de 0,55. O estudo não informa o índice de Goiás.
O índice foi construído pelo Ipam e varia de 0 a 1. Considera sobreposições entre imóveis e áreas protegidas, conflitos entre registros no CAR, a situação cadastral e a titulação no Sistema de Gestão Fundiária (Sigef). A média do Cerrado é de 0,65.
Mato Grosso do Sul e São Paulo são os únicos estados do Cerrado em que mais de 60% dos imóveis cadastrados já tiveram o CAR analisado. Mato Grosso do Sul também tem índice de integridade fundiária de 0,79, o segundo maior do bioma, atrás de São Paulo (0,82).
“Quando a gente não consegue comprovar que a nossa produção não é proveniente de desmatamento, isso se torna um problema de credibilidade do Brasil no mercado internacional”, ressalta Mário Cardoso, gerente de Recursos Naturais da CNI, em texto divulgado pelo Ipam.
Regras para compra de cotas
Em outubro de 2025, o Serviço Florestal Brasileiro lançou as primeiras CRAs e anunciou que os títulos poderão ser registrados e negociados em plataformas financeiras autorizadas.A cota só compensa déficit de Reserva Legal, não de Área de Preservação Permanente (APP), e a compra precisa ocorrer no mesmo bioma.
Ao julgar o Código Florestal em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) exigiu ainda que as duas áreas tenham características ecológicas semelhantes.
Saiba mais
O que é a CRA? – Criada pelo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), a Cota de Reserva Ambiental é um título que representa 1 hectare de vegetação nativa, existente ou em recuperação, em área que excede as exigências legais. O proprietário com excedente pede a emissão da cota com base no CAR e em laudo que comprove a vegetação, e pode vendê-la a quem tem déficit de Reserva Legal. O comprador usa a cota para regularizar o imóvel sem recompor a vegetação na própria área. A compensação vale só para Reserva Legal e deve ocorrer no mesmo bioma.
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