Resumo:
- A área tratada com bioinsumos no Brasil passou de 151 milhões para 194 milhões de hectares entre 2024 e 2025, alta de 28%, segundo a CropLife Brasil.
- Os produtos biológicos podem responder por metade do mercado de defensivos até 2050, segundo projeção de Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, apresentada nesta quarta-feira, 23/9, no 15º Congresso Brasileiro do Algodão.
- O Laboratório de Microbiologia do Solo e Biotecnologia Agrícola da UFMT, em Sinop, analisou 640 amostras de bioinsumos usados no norte de Mato Grosso entre 2020 e 2025, a maior parte multiplicada nas próprias fazendas, e identificou agente contaminante em uma das avaliações.
- Em 2022, análises da Embrapa com amostras de fazendas de Mato Grosso e Goiás mostraram que mais de 90% dos controladores biológicos produzidos on farm não continham o microrganismo desejado.
- A Lei 15.070/2024 dispensa de registro o bioinsumo produzido para uso próprio, e o controle de qualidade dessa produção cabe ao produtor e ao responsável técnico.
Por André Garcia
A área tratada com bioinsumos no Brasil passou de 151 milhões para 194 milhões de hectares (ha) em um ano, e os produtos biológicos podem responder por metade do mercado de defensivos até 2050. O avanço consolida o País entre os protagonistas do setor, mas traz um novo desafio: assegurar a qualidade do que chega à lavoura.
Projeções e análises sobre o tema foram apresentadas por especialistas durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), em Belo Horizonte (MG), nesta quarta-feira, 23/9.
“Há uma tendência de crescimento nesse mercado, pois a sociedade está exigindo produtos desenvolvidos com mais qualidade e mais sustentáveis. Quem compra tem direito de exigir qualidade”, afirmou Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, durante o evento.
Qualidade no radar
Por ser formado por organismos vivos, o bioinsumo depende da concentração de microrganismos viáveis e da ausência de contaminantes para funcionar. Na multiplicação feita na fazenda, dispensada de registro pela Lei 15.070/2024, esse controle cabe ao produtor e ao responsável técnico.
Em Mato Grosso, o Laboratório de Microbiologia do Solo e Biotecnologia Agrícola da UFMT, em Sinop, analisou 640 amostras de bioinsumos usados no norte do estado entre 2020 e 2025, entre produtos comerciais, inóculos e multiplicações on farm.
Os resultados foram apresentados pela pesquisadora Flávia Sampaio Alexandre e mostram que a maior parcela das amostras correspondia a bactérias e a produtos provenientes de multiplicação on farm. Entre as situações encontradas ao longo do trabalho esteve a identificação de agente contaminante em uma das avaliações.
Levantamentos anteriores indicam que o problema não é pontual. Em 2022, pesquisadores da Embrapa apresentaram análises de amostras coletadas em fazendas de Mato Grosso e Goiás em que mais de 90% dos controladores biológicos produzidos on farm não continham o microrganismo desejado.
Capacitação define resultado no campo
Para Flávia, a capacitação de quem trabalha com essas tecnologias é condição para que o avanço se sustente. A pesquisadora defende maior aproximação entre universidades, empresas e produtores, para que problemas identificados nas propriedades orientem novas pesquisas e o conhecimento científico chegue ao campo.
“O futuro dos bioinsumos depende de confiança. E a confiança começa com a qualidade”, afirmou ela.
Enquanto o setor busca garantir a qualidade dos produtos que já estão sendo utilizados, novas tecnologias começam a ampliar as possibilidades dos bioinsumos. Entre elas estão a edição gênica e o RNA interferente, apontados como novas fronteiras para a agricultura.
O professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Galdino Andrade Filho, cobrou do setor algodoeiro mais atenção aos bioinsumos desenvolvidos para a cultura e comparou as novas ferramentas a outras inovações que inicialmente enfrentaram desconfiança, como os organismos geneticamente modificados, que passaram por pesquisa, regulamentação e avaliação de segurança até chegar ao campo.
“O algodão é uma cultura tão importante. Então, provoco os presentes para prestar mais atenção aos bioinsumos referentes ao algodão. Acredito ser necessário para um futuro ainda mais brilhante do segmento”, pontuou.
Solo entra na conta da sustentabilidade
Ampliar as ferramentas disponíveis para o controle de pragas e doenças e garantir a qualidade dos produtos ganham importância em um cenário no qual o futuro da agricultura passa pela busca por sistemas mais eficientes e com menor impacto ambiental. Isso envolve a conservação da biodiversidade e a saúde do solo.
“Devemos pensar sempre no solo quando fazemos agricultura”, disse Bettiol, ao alertar que o avanço dessas tecnologias precisa ser acompanhado por uma pergunta permanente: as práticas utilizadas atualmente são sustentáveis no longo prazo?
Saiba mais
O que é produção on farm? É a multiplicação de microrganismos para controle biológico ou nutrição de plantas dentro da própria propriedade, em vez da compra de produto comercial pronto. Pela Lei 15.070/2024, o bioinsumo produzido para uso próprio é dispensado de registro, e a unidade de produção fica sujeita apenas a cadastro simplificado, que pode ser dispensado pelo Ministério da Agricultura. A produção pode ser individual ou coletiva, por cooperativas, associações ou consórcios de produtores, mas a venda é proibida.
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