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El Niño em MT traz riscos para soja, milho e algodão

El Niño em MT traz riscos para soja, milho e algodãoFloração e enchimento dos grãos fica sob risco. Foto: Reprodução/Aprosoja-MS

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Resumo:

  • Mato Grosso tinha 10,23% da área de soja da safra 2026/27 semeada na primeira semana de outubro, 4,79 pontos percentuais abaixo do mesmo período da safra anterior, segundo o Imea.
  • O atraso na soja pode empurrar o milho segunda safra e o algodão para o fim da estação chuvosa, nas fases em que as duas culturas mais sofrem com falta de água.
  • Na safra 2023/24, também sob El Niño, a produtividade média da soja no estado caiu 21,21%, para 50,22 sacas por hectare, segundo a Aprosoja-MT.
  • Para a Embrapa Agrossilvipastoril, a recomendação nesta safra não é antecipar nem atrasar a semeadura, mas avaliar a janela de menor risco para todo o sistema produtivo.
  • Na soja, a falta de água na floração provoca abortamento de flores e vagens; no milho, a polinização e a formação inicial dos grãos são as fases críticas; no algodão, as semanas após o início da floração prejudicam a qualidade da fibra.
  • Temperatura elevada durante a antese pode comprometer a viabilidade do pólen na soja e no milho, e o impacto do El Niño depende das datas de semeadura, das condições do solo, do material cultivado e do manejo.

 

Por André Garcia

Mato Grosso chega à primeira semana de outubro com 10,23% da soja 2026/27 semeada, 4,79 pontos percentuais abaixo do mesmo período da safra anterior. O atraso pode empurrar o milho segunda safra e o algodão para o fim da estação chuvosa, justamente nas fases em que as duas culturas mais sofrem com falta de água.

O avanço semanal foi de 6,36 pontos percentuais, segundo levantamento do Imea divulgado nesta segunda-feira, 5/10. A região oeste lidera, com 18,42% da área estimada.

“O avanço da semeadura continua dependente da ocorrência de chuvas capazes de melhorar a umidade do solo”, afirmou a analista do Imea Milena Bezerra.

Na safra 2023/24, também sob El Niño, a produtividade média da soja no estado ficou em 50,22 sacas por hectare, contra 63,74 sacas na temporada anterior, queda de 21,21%, segundo levantamento da Aprosoja-MT divulgado em janeiro de 2024.

“Para a safra 2026/27, a recomendação não é somente antecipar ou atrasar a semeadura, mas avaliar a janela de menor risco para todo o sistema produtivo”, afirma Frank Freire Capuchinho, pesquisador em agricultura e climatologia da Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop, em entrevista ao Gigante 163.

Floração e polinização concentram a perda

Pesquisador colaborador da Rede Zarc, Capuchinho explica que, mesmo dentro de uma janela adequada, o risco climático muda ao longo do ciclo. O estabelecimento inicial e as fases reprodutivas estão entre os períodos mais sensíveis ao déficit hídrico e ao calor em soja, milho e algodão.

Na soja, os principais pontos de atenção são a semeadura e emergência e o período entre a floração e o enchimento dos grãos. Na floração e na formação das vagens, a falta de água pode provocar abortamento de flores e vagens. Durante o enchimento, reduz o peso dos grãos e pode antecipar a maturação.

No milho, o florescimento, a polinização, a formação inicial dos grãos e o enchimento são as fases mais sensíveis. A polinização e a formação inicial dos grãos estão entre os momentos críticos do ciclo.

Há ainda o efeito do calor na antese, o período em que a flor está aberta e apta à polinização.

“Tanto na soja quanto no milho, temperaturas elevadas durante a antese podem comprometer a viabilidade do pólen e a formação dos grãos, além de acelerar o desenvolvimento e encurtar o período de enchimento”, afirma o pesquisador.

No algodão, o período entre o início da floração e as semanas seguintes é especialmente sensível, com possibilidade de maior abortamento de estruturas reprodutivas e prejuízos à formação e à qualidade da fibra.

De olho nas previsões

O El Niño de intensidade muito forte já foi confirmado por órgãos oficiais nacionais e internacionais e está associado a maior risco de atraso das chuvas, deficiência hídrica e temperaturas elevadas no Centro-Oeste. O fenômeno, porém, não define o resultado da safra por si.

“O El Niño aumenta o risco para uma estação mais irregular e possivelmente mais seca em partes de Mato Grosso, mas a magnitude do impacto sobre os cultivos no estado também irá depender das datas de semeadura, das condições iniciais do solo, do material cultivado e do manejo”, afirma Capuchinho.

Por isso a escolha da janela considera, além do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), os grupos de maturação, a estabilidade das cultivares, as condições do solo e o monitoramento meteorológico.

A recomendação do pesquisador é que a ocorrência do El Niño não seja considerada isoladamente nas decisões de manejo, e que o produtor acompanhe previsão de curto prazo, previsão sazonal e dados meteorológicos locais.

Saiba mais

O que é o Zarc? O Zoneamento Agrícola de Risco Climático é um estudo oficial do Ministério da Agricultura e Pecuária que indica, para cada município, cultura, tipo de solo e grupo de cultivares, os períodos de semeadura com menor probabilidade de perda por causa do clima. As janelas são publicadas por portaria e podem ser consultadas no Painel de Indicação de Riscos do ministério. O Zarc também é referência para crédito rural e seguro agrícola.

 

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