Resumo:
- Fazendas de cria, recria e engorda em Alta Floresta (MT) registraram dias de 46°C no termômetro neste ano e suspenderam o trabalho no pasto nas horas de sol mais forte, segundo a gestora Jéssica Brito.
- As propriedades analisam e corrigem o solo de cada piquete a cada dois anos e mantêm reserva de pasto para a seca, prática que, segundo a gestora, faz o pasto adubado atravessar três a quatro meses sem chuva sem secar por completo.
- O estresse por calor reduz o consumo, compromete a imunidade e afeta a reprodução dos bovinos, avalia o consultor Alexandre Pedroso, da Plentus Consultoria, para quem esse é o principal efeito das alterações do clima sobre a pecuária.
- Vacas expostas ao calor no final da gestação geram crias com efeitos permanentes sobre saúde e desempenho, segundo Pedroso.
- Sistemas mais intensivos, com maior taxa de lotação, correm mais risco em secas prolongadas e dependem de reserva de forragem planejada com antecedência, alerta a pesquisadora Patrícia Menezes Santos, da Embrapa Pecuária Sudeste.
Por André Garcia
Com as temperaturas batendo os 46°C em Alta Floresta (MT), as fazendas Triângulo e São Matheus, de cria, recria e engorda, precisaram mudar a rotina para proteger a equipe e o rebanho. Os trabalhadores deixaram o pasto nas horas de sol mais forte, e a área da maternidade vai receber minibosques para sombrear vacas e bezerros.
As medidas foram relatadas pela gestora das fazendas, a zootecnista Jéssica Brito, durante webinar promovido pela Rede Metano na Pecuária, comunidade de aprendizagem criada a partir de um curso do Instituto Akorde. O encontro discutiu os efeitos do El Niño sobre a pecuária.
A previsão do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) é 95% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre outro e dezembro. Com isso, o alerta para os próximos meses é de chuva abaixo da média e temperatura acima do normal, principalmente no Centro-Oeste.
Por isso, nas fazendas de Alta Floresta, os minibosques vão reunir espécies nativas de crescimento rápido e lento, como o baru, na área onde ficam vacas paridas e bezerros. O eucalipto, de crescimento rápido, está sendo plantado nos corredores, nas divisas e ao redor da casinha da maternidade, onde os bezerros recebem a cura do umbigo.
“Eu não consigo mudar o clima mundial sozinha. Mas eu consigo melhorar o microclima da minha propriedade: aumentar a umidade dela, melhorar a qualidade da temperatura, pelo menos em algumas regiões, principalmente onde tem mais esse risco”, explicou Jéssica.
Equipe sai do pasto no sol forte
Em 2024, considerado o ano mais quente desde o início dos registros globais, trabalhadores rurais brasileiros perderam, em média, 295 horas de trabalho por causa do estresse térmico, 23% a mais que em 1990, segundo levantamento da Energy and Climate Intelligence Unit (ECIU).
Nesse cenário, Jéssica chamou a atenção para quem trabalha no campo. Para ela, o sombreamento também representa bem-estar para a equipe, e deve ser considerando especialmente em um contexto em que a mão de obra se tornou uma das maiores dificuldades relatadas nas propriedades em que entra.
“Eu nunca presenciei o calor igual desse ano aqui. A gente chegou a ter dias de 46º no termômetro. Isso é muita coisa. A gente mudou o horário de trabalho. Na hora do sol quente não tem ninguém no pasto, porque não tem condições de trabalhar”, explicou a gestora.
Calor derruba consumo e imunidade do rebanho
Para os animais, o estresse por calor é o principal efeito das alterações do clima, o que pode resultar em perda de desempenho. Foi o que explicou o consultor Alexandre Pedroso, sócio da Plenteous Consultoria, que trabalha com pecuária leiteira.
“Estresse por calor reduz consumo, compromete imunidade, o que naturalmente vai fazer com que os animais estejam muito mais sujeitos a doenças”, afirmou durante o webinar.
Além disso, vacas em final de gestação expostas ao estresse térmico geram crias afetadas de forma permanente na saúde e no desempenho, por efeitos epigenéticos. Isso vale também para a pecuária de corte.
Agrônomo com formação em nutrição de ruminantes, o consultor passou a se dedicar ao bem-estar animal há cerca de dez anos.
“Quando eu entendi que o impacto da falta de bem-estar é maior até do que o impacto de uma boa formulação de dieta, por exemplo, eu passei a me dedicar muito a esse tema”, disse.
Reserva de pasto evita compra cara
A gestora também avalia o escore corporal das vacas antes da estação de monta, para decidir se a dieta precisa de reforço energético ou proteico. Cada piquete passa por análise de solo e correção a cada dois anos.
Segundo ela, o pasto recém-adubado chega a atravessar três a quatro meses sem chuva sem secar por completo. ]
“Não tem desculpa para você falar que você não teve uma reserva de fibra, uma reserva de pasto ali para a seca, porque todo ano existe essa seca.”
Antecedência nas medidas
A pesquisadora Patrícia Menezes Santos, da Embrapa Pecuária Sudeste, lidera o programa de pesquisa em recuperação de pastagens degradadas da Embrapa. Ela afirma que as medidas contra a falta de chuva precisam ser tomadas antes da seca.
“No momento que eu estou na seca, a minha possibilidade de contornar aquele problema fica muito mais estrita. Eu tenho que comprar um alimento, muitas vezes eu vou comprar caro. Eu não consigo mais plantar alguma coisa para suplementar os animais”, explicou.
Para a pesquisadora, ajustar a taxa de lotação à capacidade de suporte do pasto é uma das maiores dificuldades na propriedade. A pressão do mercado pesa: o produtor compra gado por oportunidade de preço e depois falta alimento para o rebanho.
Saiba mais
O que é reserva de pasto para a seca? É a forragem acumulada durante as águas para alimentar o rebanho no período seco. A forma mais comum é o diferimento, que consiste em vedar parte dos piquetes ao pastejo no fim da estação chuvosa, geralmente entre fevereiro e abril, depois de uma adubação. O capim cresce e fica em pé, pronto para ser consumido quando a chuva para. Essa massa costuma ter valor nutritivo menor, por isso muitos pecuaristas combinam o diferimento com suplementação. Outras formas de reserva são a silagem e o feno.
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