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El Niño bate recorde em outubro e eleva risco para a soja

El Niño bate recorde em outubro e eleva risco para a sojaPrevisão é de chuvas abaixo da média no norte de MT. Foto: CNA

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Resumo:

  • A temperatura do Oceano Pacífico Equatorial ficou 2,47 °C acima da média em outubro na região Niño 3.4, o maior desvio já registrado para o mês, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
  • O valor supera os +2,07 °C de outubro de 1982 e classifica o El Niño de 2026 como muito forte, com anomalia de 3,56 °C na região Niño 3, de grande influência sobre o clima da América do Sul.
  • O Painel El Niño prevê, entre novembro e janeiro, chuva abaixo da média no norte de Mato Grosso e acima da média no sul de Goiás e em Mato Grosso do Sul, período de formação e enchimento dos grãos de soja.
  • Estudo da Embrapa com simulações de cinco décadas em quatro polos do Cerrado, entre eles Cuiabá (MT), indica que a soja plantada mais cedo tende a perder mais produtividade em anos de El Niño e que o plantio direto tem melhores resultados.
  • No último El Niño forte, em 2023/24, cerca de 6% da área de soja de Mato Grosso, mais de 700 mil hectares, precisou ser replantada, segundo o Imea.

 

Por André Garcia

O El Niño de 2026 bateu um recorde de aquecimento no Oceano Pacífico, o que acende um alerta para a safra de soja no Centro-Oeste. Em outubro, a temperatura da superfície do mar ficou 2,47 °C acima da média na região Niño 3.4, usada como referência para monitorar o fenômeno, o maior desvio já registrado para o mês.

Os dados, divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) nesta terça-feira, 3/11, chegam em um momento favorável para o início da safra 2026/27, com o plantio adiantado em Mato Grosso. A preocupação está nos próximos meses, quando a previsão de chuvas irregulares e calor acima da média pode comprometer o desenvolvimento das lavouras, especialmente durante a formação e o enchimento dos grãos.

Fenômeno já é classificado como muito forte

Com esse desvio, que supera os +2,07 °C registrados em outubro de 1982, o El Niño de 2026 passa a ser classificado como muito forte. Para a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o evento pode estar entre os maiores já registrados.

O episódio de 1982, que serve de referência para o atual, se prolongou até o primeiro semestre de 1983. A intensidade, a época do ano e as condições atmosféricas regionais definem quanto o fenômeno altera a chuva e a temperatura em cada parte do país.

Centro-Oeste tem chuva incerta até janeiro

O último boletim do Painel El Niño, divulgado na quinta-feira, 29/10, por órgãos federais como o Inmet, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), prevê chuvas abaixo da média no norte de Mato Grosso e acima do normal no sul de Goiás e em Mato Grosso do Sul, onde a maior umidade deve favorecer o desenvolvimento da soja e a recuperação das pastagens.

No início do trimestre, porém, a chuva pode ficar abaixo da média em parte do Centro-Oeste, com calor mais intenso e risco de falta de água para as lavouras. Já nas áreas com excesso de chuva, a preocupação é com doenças, encharcamento e dificuldades nas operações de campo.

Soja plantada cedo perde mais

A soja plantada mais cedo tende a sofrer maiores perdas de produtividade em anos de El Niño no Cerrado, segundo estudo da Embrapa Meio Ambiente e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com participação da Embrapa Cerrados.

Ao simularem cinco décadas de safras, nos municípios de Cuiabá (MT), Rio Verde (GO), Barreiras (BA) e Planaltina (DF), os pesquisadores concluíram que a produtividade está ligada à regularidade das chuvas nas fases críticas da soja, e não apenas ao volume total recebido durante a safra.

O plantio direto também apresentou melhores resultados nas simulações, graças à palhada que conserva a umidade e reduz a temperatura do solo. Para os pesquisadores, considerar as previsões do El Niño–Oscilação Sul (ENOS), fenômeno que inclui as fases de El Niño e La Niña, pode ajudar no futuro a definir a época de semeadura e o manejo das lavouras, complementando o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).

“Por ora, independente da inclusão ou não das informações sobre o ENOS no Zarc, podemos recomendar que a semeadura da soja na região do Cerrado deve, sempre que possível, ser realizada apenas após o estabelecimento regular da estação chuvosa, evitando o chamado ‘plantio no pó’, sob condições de deficiência hídrica que possam prejudicar a germinação das plantas”, afirma Alfredo Luiz, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, no material de divulgação do estudo.

MT replantou 6% da soja

No último El Niño forte, em 2023/24, cerca de 6% da área de soja de Mato Grosso, mais de 700 mil hectares (ha) de 12,1 milhões de ha, precisou ser replantada por falta de chuva e calor, segundo levantamento do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) divulgado à época. O estado fechou a safra com 39,34 milhões de toneladas de soja, conforme o décimo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Apesar da intensidade do fenômeno atual, isso não significa que as perdas serão as mesmas. O resultado da safra dependerá principalmente da distribuição das chuvas entre novembro e janeiro.

Saiba mais

O que é o ENOS? O El Niño–Oscilação Sul é a variação natural da temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial, acompanhada de mudanças na pressão atmosférica, que altera o regime de chuvas e temperaturas em várias partes do mundo. O fenômeno tem três fases: o El Niño, quando as águas ficam mais quentes que a média; a La Niña, quando ficam mais frias; e a neutralidade, entre uma e outra. A fase é acompanhada pela temperatura da superfície do mar em faixas do Pacífico, como a região Niño 3.4, principal referência internacional, e a intensidade, de fraca a muito forte, é classificada pelo tamanho desse desvio em relação à média histórica.

 

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