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Bióloga usa agroecologia para garantir independência a mulheres

Bióloga usa agroecologia para garantir independência a mulheresRafaella usa privilégios para ajudar outras mulheres. Foto: Projeto Gaia

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Por André Garcia

Promover a independência de insumos e de maridos. Esta é a missão da bióloga, doutora em Fisiologia e Bioquímica de Plantas Rafaella Felipe, que usa a agroecologia como instrumento para regenerar o solo e para garantir renda e dignidade, especialmente para mulheres do campo.

No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, o Gigante 163 tem contado histórias como a dela. Professora na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) no Campus de Sinop (480 km de Cuiabá) e Coordenadora do projeto Gaia – Rede de Cooperação para Sustentabilidade, Rafaella não separa o debate ambiental do social.

Grupo é coordenado majoritariamente por mulheres. Foto: Projeto Gaia

Nas áreas atendidas por sua equipe, o trabalho é feito a partir de ecossistemas livres de agrotóxicos como os inseticidas, o que favorece não apenas a produção e a diversificação vegetal, como também a produção animal, com a implantação da meliponicultura (produção de abelhas sem ferrão), por exemplo.

“Um dos nossos pilares é a geração de renda. Não adianta falar em sustentabilidade sem que isso traga retorno aos agricultores. No caso das mulheres, a agroecologia traz autonomia de quem provê, proporcionando renda e dignidade. Isso permite que elas possam abandonar parceiros violentos”, explica.

A declaração leva ao debate sobre a violência doméstica rural, ainda invisível em sua opinião.

“São casos que ninguém fica sabendo. Se é difícil para as vítimas lidar com esses crimes na cidade, no campo, a situação é ainda pior por conta da distância. Outro fator importante e que muita gente não se dá conta, é que a mulher do campo é muito solitária”, afirma.

Assim, para incentivar a independência, a proposta oferece assistência técnica com foco na saúde do solo, com técnicas voltadas à manutenção da qualidade e à prevenção de doenças e pragas. Nestas propriedades o cultivo inclui frutas, hortaliças, tubérculos, grãos, plantas condimentares, medicinais e plantas alimentícias não convencionais.

“Solo saudável, planta saudável, ser humano saudável”, resume a professora.

Hoje o projeto atende 10 propriedades de agricultores familiares que recebem suporte ao longo de toda a cadeia de produção, desde o plantio, manejo agroecológico, gestão, sensibilização dos consumidores e comercialização dos alimentos produzidos e processados por eles. No total, cerca de 60 pessoas são beneficiadas pela iniciativa.

É o caso das irmãs Cleonice e Andrea Rocha de Paula. A partir da estratégia elas têm conseguido manter sustentável o pequeno sítio da família, localizado no assentamento 12 de Outubro, em Claudia (475 km de Cuiabá). Com a agroecologia elas tiveram aumento de 70% na renda e já perceberam benefícios na saúde.

O projeto Gaia existe há três anos. Foto: Projeto Gaia

Gaia, que significa “mãe terra”, também contribui para a quebra de estereótipos profissionais no meio rural, já que a maior parte das ações é coordenada por mulheres.

“É um movimento de resistência.  Quando você chega ao curso de Agronomia para falar sobre danos ambientais, o diálogo pode ser meio difícil no começo, principalmente pelo fato de ser uma bióloga falando. Mas ao longo desses três anos de projeto isso melhorou muito e hoje sinto que há admiração e respeito”, avalia.

A ação envolve o trabalho de pesquisadores e extensionistas da UFMT, Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), da Embrapa e da Escola Técnica Estadual de Sinop.

 Resistência

Vinda de Rio Verde, em Goiás, Rafaella chegou em Sinop em 2012 para dar aulas na UFMT. Seu “casamento” com a agroecologia começou mais ou menos nesta época, quando descobriu que a couve consumida em sua nova cidade era trazida de São Paulo, em um percurso de mais de 1.500 km.

“Aquilo não era possível para mim. É um alimento que a gente não sabe quem plantou, quem colheu, que impacto causou. Foi aí que começou essa jornada. Encaro isso não é só uma questão profissional, mas como algo que tem a ver com meu propósito de vida, com o que eu quero para minha família, minha comunidade e para a sociedade”, explica.

As bandeiras feminina e da agroecologia se misturam na fala de Rafaella que destaca que estas são lutas contínuas.

“Só por nascer mulher nós temos vários desafios a serem superados. Mas algumas têm mais privilégios que outras e, muitas vezes, em nossas bolhas, não conseguimos perceber isso. Então eu busco auxiliar outras mulheres por meio do meu trabalho. Como mulher e professora, meu foco sempre foi impactar pelo coletivo”, conclui.

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