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Integração de resíduos e dejetos corta custos de pecuária em MT

Integração de resíduos e dejetos corta custos de pecuária em MTGrupo mantém usinas de etanol de milho e fotovoltaica, algodoeira e confinamento. Foto: Divulgação

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Resumo:

  • A Fazenda Horizontina, em Ipiranga do Norte (MT), usa os resíduos da própria usina de etanol de milho e da algodoeira na alimentação do confinamento, e devolve os dejetos dos animais à lavoura como adubo e água de fertirrigação.
  • Fernando Pozzobon, CEO da Fermap, afirma ao Gigante 163 que aproveitar internamente os subprodutos do milho e do algodão reduz drasticamente o custo de produção.
  • A alimentação é o maior custo da engorda: no Centro-Oeste, o gasto do confinamento ficou em R$ 11,89 por cabeça por dia em agosto, segundo o Índice de Custo Alimentar Ponta (Icap).
  • O Brasil importa 93% dos fertilizantes que usa, pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e a guerra no Oriente Médio encareceu a ureia em 40% e o MAP em 20%.
  • O país poderia produzir 120 milhões de metros cúbicos de biogás por dia, estima a Abiogás, e só entre pequenos bovinocultores a economia com biodigestores chegaria a R$ 1,45 bilhão por ano, segundo a Embrapa Agroenergia.

Por André Garcia

Com fertilizante importado e dieta de confinamento pesando no bolso, produtores têm buscado dentro da própria porteira soluções para baratear os custos de produção. Da Fazenda Horizontina, em Ipiranga do Norte (MT), vem um exemplo de como isso pode ser feito: resíduos do milho e do algodão alimentam o gado, enquanto os dejetos dos animais geram energia e retornam às lavouras como nutrientes.

A propriedade da família Pozzobon faz parte da Fermap, grupo que mantém dentro da fazenda a usina de etanol de milho, a algodoeira e o confinamento. Com as três atividades na mesma área, o que sobra de uma etapa vira insumo para outra.

“Essa estrutura foi desenhada para que absolutamente todos os subprodutos gerados nessas indústrias sejam transformados em carne através da pecuária. O DDG do milho e os resíduos vegetais do algodão, que viram briquetes ricos em fibras, alimentam diretamente nossos animais em confinamento”, explica o CEO da Fermap, Fernando Pozzobon, em entrevista ao Gigante 163.

Alívio no custo da dieta

Esse aproveitamento alivia uma das principais despesas da pecuária. A alimentação é o maior custo da engorda: no Centro-Oeste, o gasto do confinamento ficou em R$ 11,89 por cabeça por dia em agosto, segundo o Índice de Custo Alimentar Ponta (Icap). Embora o valor tenha caído em relação ao mês anterior, a lucratividade recuou, já que o tempo de cocho aumentou e a produção por animal diminuiu.

“Quando aproveitamos internamente os subprodutos do milho e do algodão para alimentar o boi, nós reduzimos drasticamente o custo de produção”, reforça Pozzobon.

Fora da porteira, esse mesmo coproduto virou item de exportação. O Brasil embarcou 879,3 mil toneladas de DDG em 2025, alta de 9,77% sobre 2024, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) compilados pela União Nacional do Etanol de Milho (Unem). Em 2026, veio a primeira venda para a China, que compra cerca de 7 milhões de toneladas por ano, mais do que o país inteiro produz.

Dejeto volta à lavoura

De acordo com o CEO, a parte sólida dos dejetos segue para a compostagem e volta às áreas agrícolas como adubo. A fração líquida tem um caminho mais longo: passa por fermentação, gera biogás, aproveitado como fonte de energia, e a água que sai desse processo retorna à lavoura por fertirrigação, técnica que dilui nutrientes na água da irrigação e os entrega direto às raízes das plantas.

Dejetos voltam às áreas agrícolas como adubo. Foto: Divulgação

“A produtividade melhora ano após ano e o manejo de pragas fica mais equilibrado. O restabelecimento da microbiota do solo e o aumento da matéria orgânica garantem a estabilidade do potencial produtivo ao mesmo tempo em que possibilitam uma pequena redução de custos.”

O reaproveitamento ganha relevância diante da dependência brasileira de fertilizantes importados, que chega a 93%, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O quadro expõe o agro a conflitos e crises logísticas, como a guerra no Oriente Médio, que encareceu a ureia em 40% e o MAP em 20%. Com isso, entre janeiro e abril de 2026, a compra de nitrogenados e fosfatados caiu 4%, mas o gasto subiu 16%.

Resíduo abastece a matriz energética

A Horizontina também gera parte da própria energia, com a queima de cascas e bagaço como biomassa, segundo publicação da Bayer, parceira da fazenda. Na página do grupo são citadas ainda usinas solares e central geradora hidrelétrica (CGH). Sem mencionar quanto cada fonte representa no consumo, a empresa afirma que o objetivo é produzir toda a energia de forma renovável.

Reaproveitamento alivia gastos e abre oportunidades de mercado. Foto: Divulgação

O potencial para o avanço no Brasil é grande, mas ainda pouco explorado: a Associação Brasileira do Biogás (Abiogás) estima que o país poderia produzir 120 milhões de metros cúbicos diários, o que cobriria a meta no Acordo Global de Metano. Só entre pequenos bovinocultores, a economia com essa tecnologia chegaria a R$ 1,45 bilhão por ano, segundo a Embrapa Agroenergia.

“Nada se perde na pecuária: todos os dejetos dos animais são tratados”, diz Fernando. “É um sistema de ‘resíduo zero’ que diminui o uso de fertilizantes minerais e regenera o meio ambiente”, acrescenta.

Estratégia integrada

Nessa mesma lógica de otimização, o espaço também é aproveitado, evitando a abertura de novas áreas. Parte do milho safrinha é semeada em consórcio com braquiária, e os animais entram em recria sobre esse pasto depois da colheita do grão, o que mantém o solo coberto na entressafra. Para evitar o desperdício, o mapeamento e a aplicação em taxa variável ajustam a dose de fertilizante e defensivo a cada trecho da área.

Além disso, a preservação de nascentes, matas ciliares, Áreas de Preservação Permanente (APPs) e reserva legal é tratada como ativo vivo. “Ao mantermos esse ambiente em total equilíbrio, nós promovemos serviços ambientais fundamentais […]. Preservar, para nós, é garantir que a produção de alimentos e a natureza trabalhem juntas na mesma engrenagem”, conclui.

Saiba mais

O que é DDG? É a sigla em inglês para grãos secos de destilaria, o resíduo sólido que sobra quando o amido do milho é convertido em etanol. Como só o amido é consumido no processo, o que resta concentra proteína, fibra e minerais, o que torna o material um ingrediente energético e proteico para a nutrição animal, sobretudo em confinamento de bovinos. Quando o resíduo é vendido ainda úmido, logo após a moagem, recebe o nome de WDG; quando é seco para durar mais e viajar mais longe, vira DDG. Se ao material forem devolvidos os solúveis da fermentação, o produto passa a se chamar DDGS.

 

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