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Nenhum frigorífico da Amazônia atende exigências chinesas

Nenhum frigorífico da Amazônia atende exigências chinesasFalta de controle se reflete nas áreas de compra de gado. Foto: Sindifrigo-MT

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Por André Garcia

Nenhum frigorífico da Amazônia Legal comprova atender plenamente às exigências ambientais do mercado chinês. Segundo levantamento do Radar Verde, 102 plantas habilitadas a exportar para China e Hong Kong não demonstram conformidade com as normas da Associação Chinesa de Carnes (CMA) para o comércio verde.

Em um cenário de mudança nas regras do comércio entre Brasil e China, os resultados indicam que parte da cadeia pode enfrentar restrições para acessar ou se manter no principal mercado da carne bovina brasileira.

“O novo regime de salvaguardas da China aumenta o valor estratégico de “acertar na seleção de fornecedores” para o escasso canal dentro das cotas” destaca trecho do estudo publicado pelo Radar Verde.

Falha está na origem da cadeia

O principal gargalo identificado pelo levantamento está na rastreabilidade. Entre as 31 plantas habilitadas a exportar diretamente para a China, 21 apresentam baixo nível de controle socioambiental e 10 têm nível muito baixo. Apenas 20 demonstram algum tipo de monitoramento das fazendas fornecedoras diretas.

No caso dos fornecedores indiretos, que incluem propriedades por onde o animal passa antes do abate, nenhuma empresa apresentou evidências de mecanismos efetivos de controle.

Entre as plantas habilitadas a exportar para Hong Kong, 61% têm políticas com baixo nível de controle socioambiental e 55% monitoram apenas fornecedores diretos.

Exposição ao desmatamento amplia risco

A falta de controle ao longo da cadeia se reflete diretamente nas áreas de compra de gado. O estudo mapeou as zonas potenciais de abastecimento das unidades frigoríficas e identificou exposição ao desmatamento que varia de cerca de 31 mil a quase 3,8 milhões de hectares, dependendo da área de atuação de cada planta.

Mesmo diante desse cenário, apenas uma empresa, a Plena Alimentos, respondeu ao questionário da edição 2025 do Radar Verde, que permite a apresentação de evidências e informações adicionais sobre políticas socioambientais.

Os números também foram tratados no workshop “China-Brazil Exchange Workshop”, realizado nesta terça-feira 24/3, em Pequim. De acordo com Paula Bernasconi, líder de engajamento para a América do Sul na consultoria Trase.  80% do risco de exposição ao desmatamento da China vem do Brasil. E que os produtos da pecuária sozinhos representam 61% desse risco.

“Trabalhando juntos, Brasil e China têm a oportunidade de reformular o debate sobre agricultura sustentável e comércio. Fazem isso mudando o foco para que seja menos voltado à conformidade a padrões e mais à cooperação e ação coletiva”, afirmou

Mudança nas regras aumenta pressão

Em dezembro de 2025, o governo chinês anunciou a criação de cotas tarifárias por País fornecedor, com tarifas adicionais de 55% sobre volumes que excederem os limites estabelecidos. O regime entrou em vigor em janeiro de 2026 e terá duração inicial de três anos. Para o Brasil, a cota definida para 2026 é de 1,106 milhão de toneladas.

O novo modelo aumenta o valor estratégico das exportações realizadas dentro das cotas e intensifica a disputa entre fornecedores. Nesse contexto, critérios como rastreabilidade, controle da cadeia e transparência tendem a ganhar peso na escolha dos parceiros comerciais.

O relatório aponta ainda que, em outubro de 2025, uma associação chinesa de importadores manifestou a intenção de adquirir carne bovina brasileira livre de desmatamento, sinalizando uma mudança de padrão no comércio internacional.

 

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