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Veja como Mato Grosso pode contornar vulnerabilidades da carne, segundo o Imac

Veja como Mato Grosso pode contornar vulnerabilidades da carne, segundo o Imac

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Por Vinicius Marques

O Instituto Mato-grossense da Carne (Imac) abriu uma importante conversa a respeito da sustentabilidade do setor em nosso Estado na última quarta-feira, 9/02. Segundo Caio Penido, presidente do Imac, Mato Grosso tem condições de atender às demandas globais, mantendo a grandiosidade do mercado brasileiro e promovendo práticas mais sustentáveis. Para isso, o instituto destacou três pontos de vulnerabilidade que afetam a imagem da nossa carne no mercado externo: a regularização ambiental, o controle da emissão de gases do efeito estufa (GEE) e a transparência e rastreabilidade.

“Vivemos uma crise global de sustentabilidade, não só de mudanças climáticas, mas também da segurança alimentar”, afirma Penido. “São dois temas relevantes e, nesse momento, todas as atenções se voltam para o Brasil — onde a gente produz muito e tem grande biodiversidade — e se concentram no Mato Grosso, Estado central que tem floresta amazônica, Cerrado, Pantanal, rios e um agro crescente e pujante.”

Entenda agora os três pontos apresentados pelo instituto e quais as possíveis soluções para fazer do nosso agro ainda maior e mais bem-visto.

Regularização ambiental

Ao se tornar proprietário de uma porção de terra, é necessário que o local e as atividades ali promovidas respeitem efetivamente o que a legislação brasileira determina. Assim, o produtor deve, por exemplo, identificar em sua fazenda as áreas de Reserva Legal (RL), de Preservação Permanente (APP) e de Uso Restrito (AUR). 

O governo estadual, atualmente, dispõe por meio da Lei complementar de número 592/2017 o Programa de Regularização Ambiental, que compreende a relação de ações a serem feitas pelos proprietários e posseiros rurais, a fim de regularizar o espaço.

Além disso, ela disciplina “o Cadastro Ambiental Rural (CAR), os Procedimentos de Regularização Ambiental dos Imóveis Rurais e de Licenciamento das atividades poluidoras ou utilizadoras de recursos naturais”, conforme previsto na lei.

No entanto, segundo o presidente do Imac, a questão da regularização ambiental ainda é um desafio grande para o País. “É difícil mesmo regular uma propriedade, com tanta biodiversidade que nós temos no Estado”, Penido afirma. “Mas estamos evoluindo”.

Como uma das soluções criadas para este gargalo, o instituto, em parceria ao Ministério Público Federal (MPF), desenvolveu o Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), um sistema de geomonitoramento do processo de adequação ambiental da propriedade pecuária, promovendo sua restauração e retorno ao mercado formal. 

“Com um aplicativo de celular, o produtor fotografa a área a ser restaurada dentro de sua propriedade. A partir do nosso geomonitoramento, ele é reinserido e consegue vender para indústrias que fazem monitoramento socioambiental no abate”, detalha Penido.

Controle de emissão dos gases de efeito estufa

Uma das maiores preocupações no cenário mundial, que esteve em grande evidência desde a COP-26, é em relação à emissão dos GEE. Países têm trabalhado, em diferentes setores econômicos, na redução ou neutralização do lançamento de gases na atmosfera.

No Brasil, apenas no ano de 2020, a agropecuária foi responsável por emitir 211.186.000 toneladas de CO2e — medida internacionalmente utilizada para representar os demais GEE em forma de dióxido de carbono (CO2). Esse valor é de emissão líquida (ou seja, já subtraindo o quanto o setor sequestrou de carbono da atmosfera) e representa um crescimento de 79,7% de emissões nos últimos 30 anos. A emissão líquida do gás metano (CH4) também subiu, passando de 128.306.260 em 1990 para 198.389.149 em 2019 — um aumento de 54%. Os dados são do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG).

O instituto da carne acredita que o setor nacional possui grande  potencial de carbono neutro. Segundo Caio Penido, a estratégia que se deve adotar, para valorizar a carne mato-grossense, aumentar a produtividade e diminuir prejuízos, é de intensificação da produção, reduzindo a idade do abate e aumentando o número de bovinos por hectare.

Segundo os dados apresentados por Bruno Andrade, diretor de operações do Imac, em 2011 a emissão de metano (CH4) por animal abatido no Estado era de 135 kg. Neste ano, o abate de bovinos acima de 36 meses de idade foi de 48% e os de menos de 24 meses, apenas 3%. Já em 2021, houve uma redução de 10,4% do volume total emitido por animal. Não coincidentemente, o abate tardio (acima dos 36 meses) foi de apenas 22%, enquanto que o de animais abaixo dos 24 meses cresceu 34% em 20 anos.

“A gente sabe ainda que, quando abatemos animais mais precoces, estamos intensificando a produção, utilizando mais tecnologias na dieta deles e sistemas mais adequados, que melhoram o ambiente onde o bovino está sendo criado”, aponta o diretor de operações. “Isso faz com que a emissão de metano entérico se reduza de 50 a até 41 kg de emissão por animal ao ano.”

Outra medida sustentável e altamente lucrativa é a combinação da pecuária intensiva com o manejo produtivo de animais e pastagens degradadas, realizando a correção dos solos, o pastejo rotacionado e o controle reprodutivo do rebanho. 

Segundo estudo produzido pela Embrapa Pecuária no semestre passado, um sistema de média lotação, cerca de 3,3 unidades animais (ua) por hectare, apresenta a pegada de CO2 mais baixa, com possíveis créditos de carbono, quando comparadas a um sistema de um animal por hectare.

“A recuperação de pastagens e a intensificação da produção de bovinos nessas áreas melhoram o sequestro de carbono e mitigam as emissões de gases de efeito estufa, além de ter um efeito poupa-terra”, destaca a Embrapa em seu portal.

Caio Penido diz ainda que foi criado, em parceria com a Federação das Indústrias no Estado do Mato Grosso (Fiemt), o Observatório da Carne, com o intuito de fornecer um painel de controle da cadeia produtiva do setor ao pecuarista, com variadas informações sobre a atividade no estado, com dados ambientais, sociais e de comercialização. “O que eu acho principal é auxiliar o produtor na tomada de decisão da intensificação e melhora no balanço de carbono”, afirma o presidente.

“Assim, a produção intensiva pode gerar retorno financeiro ao pecuarista, um produto de melhor qualidade e um impacto positivo ao meio ambiente, por meio do sequestro de carbono e menor emissão de outros GEE, em especial, o metano”, completa Bruno Andrade.

Transparência e rastreabilidade

Uma demanda cada vez mais crescente no mercado da carne é a de rastreabilidade, visando a segurança alimentar e nutricional (SAN). Consumidores, importadores e distribuidores frigoríficos têm associado a qualidade do alimento com o conjunto de informações transparentes a respeito da produção do mesmo: em qual sistema os bovinos foram produzidos? Houve desmatamento ilegal para a criação do rebanho? Quais soluções de manejo sanitário foram realizadas para o trato dos animais? Quanto de metano o animal emitiu e quanto de carbono a pastagem sequestrou?

Para alcançar os 100% de rastreabilidade no gado abatido de fornecedores diretos no Estado, o Imac lançou o Sistema Eletrônico de Inteligência da Indústria da Carne (Seiic), uma plataforma da cadeia produtiva que informa a origem dos bovinos para o abate.

“As grandes produtoras já realizam o monitoramento interno de suas produções. Através do Seiic, vamos fornecer para as indústria pequenas o nosso módulo de compras, garantindo a transparência dos abates”, espera Penido.

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