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Fertilizante verde já pode sair mais barato que o importado no Brasil

Fertilizante verde já pode sair mais barato que o importado no BrasilEstudo aponta condições únicas para produção doméstica. Foto: Reprodução/Instituto E+Transição Energética

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Resumo

Autossuficiência sustentável: Um estudo do Instituto E+ Transição Energética e do Rocky Mountain Institute (RMI) mostra que o Brasil tem capacidade de produzir fertilizante limpo e competitivo, reduzindo a dependência externa, que hoje supre 97% do consumo nacional.

A rota da amônia verde: A estratégia consiste em usar energia solar, eólica e biometano para produzir amônia de baixo carbono, componente que representa entre 60% e 90% do custo final dos fertilizantes.

Potencial de produção: O país tem condições de produzir 3,8 milhões de toneladas de nitrogênio por ano (45% da demanda estimada para 2050). Desse total, 1,2 milhão de toneladas viria diretamente de fontes limpas.

Fim da vulnerabilidade: Em 2024, o Brasil liderou o déficit comercial global do setor, gastando US$ 4,3 bilhões com importações. A produção nacional protegeria o agronegócio contra crises geopolíticas, como a guerra na Ucrânia, que chegou a dobrar o preço da ureia.

Oportunidade para Mato Grosso: A cidade de Rondonópolis foi identificada como um polo estratégico para receber usinas de amônia verde devido à sua proximidade com a produção agrícola do Centro-Oeste e ao grande potencial de geração de biometano a partir de resíduos da agropecuária local.

 

Por André Garcia

O Brasil já pode produzir fertilizante limpo, a partir de energia solar, eólica e resíduos agrícolas, a um custo competitivo com o fertilizante importado, que hoje responde por 97% do que o país consome. É o que mostra estudo recente do Instituto E+ Transição Energética em parceria com o Rocky Mountain Institute (RMI), dos Estados Unidos.

A proposta é utilizar eletricidade de fontes renováveis e biometano para produzir amônia e, em seguida, usá-la como base para a fabricação de fertilizantes. A amônia responde por entre 60% e 90% do custo final desses insumos.

“Com abundância de vento, sol, biomassa e um mercado agrícola robusto, o país reúne condições únicas para desenvolver uma indústria doméstica de fertilizantes de baixo carbono, capaz de reduzir riscos, gerar competitividade e apoiar metas climáticas”, afirma Pedro Guedes, especialista em Combustíveis Renováveis e Fertilizantes do Instituto E+ e um dos autores do estudo.

Considerando a capacidade total das plantas em operação, ociosas e anunciadas, o Brasil teria condições de produzir 3,8 milhões de toneladas de nitrogênio por ano, o equivalente a 45% da demanda projetada para 2050. Desse total, 1,2 milhão de toneladas viriam de fontes de baixo carbono.

O estudo compara os custos de produção de amônia verde, cinza e azul com base nas tecnologias disponíveis atualmente. Os dados mostram que a verde já seria competitiva com as demais em projetos híbridos, que combinam geração dedicada de energia renovável com conexão à rede elétrica, em localidades como os portos de Rio Grande e Pecém.

O custo da dependência

Em 2024, o déficit comercial do setor chegou a US$ 4,3 bilhões, o maior do mundo, com China, Rússia, Nigéria e Omã entre os principais fornecedores. Essa dependência expõe a agricultura brasileira a choques externos, como o que ocorreu em 2022, quando a guerra entre Rússia e Ucrânia fez o preço da ureia disparar mais de 100% em relação à média da década anterior.

O que isso significa para Mato Grosso

Mato Grosso é apontado como uma das maiores oportunidades para o avanço dessa agenda. Segundo os pesquisadores, Rondonópolis é uma das cinco localidades analisadas com potencial para sediar plantas de produção de amônia verde, selecionada pela proximidade com os polos agrícolas do Centro-Oeste.

A demanda por fertilizantes no Brasil deve crescer 52% na próxima década. Produzir localmente, com energia renovável, significaria para o produtor mato-grossense maior previsibilidade de preços, menor exposição a crises geopolíticas e um diferencial competitivo crescente no mercado internacional.

Nesse cenário, o biometano, gerado a partir de resíduos agrícolas e da pecuária, é outro caminho promissor, com potencial ainda muito pouco aproveitado no país. Mato Grosso, com sua vasta produção agropecuária, tem grande capacidade de geração dessa matéria-prima.

De importador a produtor

Para que esse potencial se converta em produção, o estudo indica que são necessários alinhamento de políticas públicas, mobilização de investimentos, expansão da infraestrutura energética e mecanismos de ativação da demanda.

“Com coordenação e ação, o país pode avançar de importador dependente para referência global na produção de fertilizantes sustentáveis, reforçando sua segurança produtiva e seu protagonismo na transição energética”, conclui Guedes.

Você sabia?

A amônia recebe classificações por cores de acordo com o seu impacto ambiental

  • Amônia Cinza: É a tradicional, produzida a partir de combustíveis fósseis (como gás natural ou carvão) e altamente poluente.

  • Amônia Azul: Utiliza combustíveis fósseis, mas conta com tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS) para reduzir a poluição.

  • Amônia Verde: É a 100% limpa, feita apenas com água, ar e energia de fontes renováveis (solar, eólica ou biomassa), sem emitir gases estufa.

O biometano é o “ouro invisível” do campo

  • O biometano mencionado no estudo é um gás combustível purificado, obtido a partir do biogás. Ele é gerado pela decomposição do lixo orgânico, restos de colheitas e, principalmente, do esterco de suínos e bovinos.
  • No Centro-Oeste, transformar esses resíduos poluentes em energia limpa e matéria-prima para fertilizantes resolve dois problemas de uma só vez: o passivo ambiental e o custo do insumo.

O Porto de Pecém é referência no assunto

  • O Porto de Pecém, no Ceará (citado no texto como local competitivo para a amônia verde), abriga um dos projetos mais avançados do mundo para a criação de um “Hub de Hidrogênio Verde“.
  • Como a amônia verde é feita a partir do hidrogênio verde combinado com o nitrogênio do ar, os portos brasileiros estão se tornando zonas industriais estratégicas para exportar energia limpa para o mundo.

 

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