Resumo
- Em 2025, 55,1% da superfície de água do Cerrado estava em hidrelétricas, a maior proporção entre todos os biomas do País
- Apenas 34,4% da água do bioma é natural, em rios, lagos e lagoas
- No Brasil como um todo, o quadro é inverso: 76,7% da água de superfície ainda é natural
- A marca do Cerrado em 2025 não está na quantidade de água, mas no tipo
Conhecido como o “berço das águas” do Brasil, o Cerrado tem hoje a maior parte de sua água de superfície longe das nascentes: represada em usinas hidrelétricas. Em 2025, 55,1% dessa água estava em reservatórios e apenas 34,4% era natural, segundo o MapBiomas, em dados divulgados nesta terça, 16/6.
Esta é a maior proporção de água represada em hidrelétricas entre todos os biomas do País.
No Brasil como um todo, o quadro é o inverso: a maior parte da água de superfície ainda é natural, 76,7%. No Cerrado, essa lógica se inverte, e predomina a água armazenada para gerar energia.
Com 1,6 milhão de hectares de superfície de água, o Cerrado é o quarto bioma do País em área coberta por água, atrás de Amazônia, Mata Atlântica e Pampa. O número ficou praticamente estável em relação a 2024.
Mas é a composição dessa água que chama atenção. Enquanto biomas como a Amazônia e o Pantanal têm mais de 90% de água natural, no Cerrado a água artificial, somando hidrelétricas e outros reservatórios, responde por cerca de dois terços do total.
Alerta nas bacias hidrográficas
A situação atual mostra a pressão sobre os rios que abastecem essas usinas. Segundo boletim do Cemaden divulgado nesta terça, 16/6, as bacias do rio Paraná, onde estão Itaipu e Porto Primavera, e a do Tocantins-Araguaia encerraram maio em seca hidrológica severa a extrema, com previsão de piora em junho.
A estiagem atinge o coração do bioma. Pelo Índice Integrado de Seca do Cemaden, as condições de seca moderada a severa se concentram em áreas como o leste do Mato Grosso, o sul de Goiás e o oeste de Minas Gerais.
Para julho, a previsão é de vazões abaixo da média nas bacias do Paraguai e do alto Paraná.
Energia e agricultura dependem da mesma água
A água do Cerrado sustenta dois setores estratégicos. Boa parte das hidrelétricas brasileiras depende de rios que nascem no bioma, onde também está concentrada grande parte da agricultura irrigada do Brasil. Por isso, a forma como essa água é usada e conservada tem efeito direto sobre a geração de energia e a produção de alimentos.
Estudos conduzidos pelo geógrafo Yuri Salmona, doutor em ciências florestais pela Universidade de Brasília (UnB), projetam que o Cerrado deve perder, até 2050, mais um terço de suas águas. Em entrevista à Agência Brasil, ele apontou os impactos disso sobre todos os demais biomas e sobre os setores econômicos.
“Podemos esperar um ambiente mais seco, com mais escassez e mais conflitos por água. Nossa matriz energética é baseada em hidrelétricas e a falta de água leva a falta de energia. Além disso, 80% da área irrigada do Brasil está dentro do Cerrado, sendo que 50% da água captada do Brasil é para agricultura e cerca de 11% para a pecuária”.
Saiba mais
Água natural e água antrópica: O MapBiomas separa a superfície de água em dois tipos. A natural é a que se forma sem ação humana, como rios, lagos, lagoas e áreas que alagam na cheia. A antrópica é criada ou mantida pelo homem, como os grandes lagos das usinas hidrelétricas, os reservatórios e os tanques de aquicultura.
Por que uma usina “cria” água: Para gerar energia, uma hidrelétrica barra o rio e forma um lago artificial, que inunda áreas antes secas. Nos mapas de satélite, esse lago aparece como superfície de água, somando-se ao total do bioma, mesmo não sendo um curso d’água natural.
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