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El Niño forte e preços em queda ameaçam nova safra

El Niño forte e preços em queda ameaçam nova safraRisco climático coincide com momento de pressão nos grãos. Foto: Divulgação/ADM

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Resumo:

  • O plantio da nova safra de soja começa sob a ameaça de um El Niño de forte intensidade, o que pode atrasar os trabalhos no campo, desregular as chuvas em setembro e provocar estresse hídrico nas plantas.
  • O mercado da soja já inicia o ciclo sob pressão, acumulando queda de 4,6% no segundo trimestre em Chicago. A baixa é reflexo da grande oferta global, da safra recorde anterior no Brasil e das boas perspectivas para a produção dos EUA.
  • O milho de segunda safra está perdendo estímulo e espaço devido aos altos custos de produção e preços baixos. No cenário global, o grão americano segue muito competitivo; internamente, há forte concorrência com o setor de etanol.
  • Apesar da pressão de baixa, um eventual impacto do El Niño na safra da China poderia fazer o país aumentar suas importações de forma expressiva, alterando o balanço global e movimentando os preços.
  • A pluma surge como uma alternativa mais rentável que o milho para a segunda safra. Impulsionado pela redução da produção global e pelo aumento das importações chinesas (que cresceram 91% nos primeiros cinco meses de 2026), o algodão deve atrair maior área plantada no Brasil.

Por André Garcia

O plantio da próxima safra de soja no Centro-Oeste começa sob o risco de um El Niño de forte intensidade, o que pode atrasar o início dos trabalhos e comprometer o estabelecimento das lavouras. É o que aponta o relatório trimestral Perspectivas 2026, publicado pela StoneX nesta quarta-feira, 8/7.

De acordo com o documento, o terceiro trimestre será marcado pela consolidação do fenômeno e pelo aumento expressivo do risco climático. Neste cenário, o mês de setembro será decisivo para o produtor, porque é quando a soja precisa entrar no chão e quando as chuvas ainda podem demorar a chegar de forma regular.

“Regiões com chuva abaixo do normal e temperaturas acima da média tendem a enfrentar maior risco de estresse hídrico, aumento da evapotranspiração e redução do potencial produtivo, especialmente em fases de plantio, floração e enchimento de grãos”, alerta Carolina Giraldo, analista de Inteligência de Mercado da consultoria.

Intertítulo sobre a soja

O risco climático chega em um momento em que o mercado de grãos já opera pressionado por outros fatores. A soja fechou junho a 1.116,75 centavos por bushel em Chicago, uma queda de 4,6% no segundo trimestre.

Segundo a analista Ana Luiza Lodi, a baixa reflete a pressão exercida pelas boas perspectivas para a safra norte-americana, pela confirmação de uma produção recorde no Brasil e pela competitividade limitada da soja dos EUA frente à brasileira. Ou seja, o produtor entra na nova safra com oferta abundante e preço menos atrativo.

“Por mais que não haja restrições no balanço de oferta e demanda global da oleaginosa, surpresas podem ocorrer, principalmente no lado da oferta com a definição da safra dos EUA e as decisões relacionadas à temporada que ainda começará na América do Sul”, diz ela.

Milho safrinha perde espaço na disputa por área

O milho vive um momento parecido, mas com uma pressão adicional: a concorrência por área com outras culturas. O relatório aponta que a tendência histórica de expansão da segunda safra fica comprometida em um contexto de custos elevados e preços em baixa, o que já reduz o estímulo ao plantio na região.

A StoneX estima a relação estoque/uso do milho americano em 12,1%, acima da média dos últimos anos, o que mantém o grão dos Estados Unidos competitivo e pressiona os preços globais. No mercado interno, o milho brasileiro ainda enfrenta a concorrência crescente das usinas de etanol.

Ainda assim, o relatório vê um risco que pode virar o jogo. As importações chinesas de milho vinham 39,4% acima do mesmo período do ano passado, e um El Niño que comprometa a safra da China pode trazer o país de volta às compras, mexendo com o balanço global.

“Riscos em outros países não podem ser descartados, e o cenário chinês chama atenção. Na eventualidade de um El Niño comprometer de forma mais proeminente a safra chinesa, um ressurgimento do país como comprador relevante tende a movimentar ainda mais o balanço global”, avalia o analista Raphael Bulascoschi.

Algodão ganha atratividade como segunda safra

Enquanto o milho perde espaço, o algodão aparece como alternativa mais rentável na segunda safra. O relatório aponta que uma maior atratividade da pluma em relação ao milho deve elevar as perspectivas para a oferta brasileira, o que pode ampliar a área plantada no país no próximo ciclo.

As cotações do algodão passaram por forte alta em 2026, apoiadas pela redução da produção global e pela recuperação das importações. A China, por exemplo, importou cerca de 825 mil toneladas nos primeiros cinco meses do ano, volume 91% maior que no mesmo período de 2025.

Mesmo com a produção brasileira estimada em recuo e com dúvidas quanto à sustentação dos ralis no longo prazo, o país segue como principal exportador global.

“O mercado se encontra em um contexto de rebalanceamento. Uma queda na produção global e uma perspectiva de um comércio internacional mais aquecido fundamentam os preços mais altos da pluma no segundo semestre do ano”, diz Bulascoschi.

Saiba mais

O impacto do El Niño – O El Niño é um fenômeno climático causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, na linha do Equador, que muda a circulação dos ventos e desloca as áreas de chuva pelo planeta, alterando o regime de chuvas e as temperaturas em regiões agrícolas do mundo. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o evento atual deve ter anomalia de temperatura próxima de 2,0°C, o que o coloca na categoria de forte intensidade. No Brasil, costuma deixar o Sul mais chuvoso e o Centro-Norte mais seco e quente, um padrão que preocupa quando coincide com o período de plantio.

 

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