Resumo:
- O grupo Roncador, de Mato Grosso, aplicou 81% menos ingrediente ativo por hectare na safra retrasada e 68% menos na safra passada, quando houve mais pressão de praga, segundo o presidente do grupo, Pelerson Penido.
- O grupo substituiu completamente o fertilizante químico em várias áreas, com composto orgânico produzido no confinamento e remineralizador extraído de mineração própria.
- O Brasil importou 22,4 milhões de toneladas de fertilizantes entre janeiro e julho, 7,4% menos que em 2025, mas gastou 7,3% a mais, US$ 8,8 bilhões; em junho, o preço médio da tonelada importada estava 26% acima de um ano antes.
- A integração lavoura-pecuária e o plantio direto entraram na fazenda em 2002; os biodefensivos só chegaram em 2019, depois que o grupo reverteu a degradação das áreas.
- O grupo mantém o uso de defensivos químicos e seleciona as moléculas compatíveis com os produtos biológicos, aplicados hoje em 100% das áreas de soja.
Por André Garcia
Enquanto a disparada dos fertilizantes e defensivos importados encarece o custo de produção, o Grupo Roncador, em Mato Grosso, mostra como os bioinsumos podem ajudar o produtor a blindar o caixa da fazenda: a propriedade deixou de comprar adubo químico em diversos talhões e já chegou a reduzir mais de 80% a aplicação de ingredientes ativos por hectare.
A estratégia, combinada com a integração lavoura-pecuária (ILP) e com o manejo de solo, foi apresentada por Pelerson Penido, presidente do grupo, durante o Fórum Bioinsumos no Agro, realizado nesta semana em São Paulo.
“Incomodava a quantidade de defensivos, de insumos e de fertilizantes solúveis por conta da dependência do mercado. Em um ano o preço está lá em cima; no outro, muda tudo. Você fica totalmente dependente. E quanto mais você produz, mais precisa repor”, explicou durante painel voltado aos produtores.
De acordo com ele, a redução do ingrediente ativo foi de 81% na safra retrasada e de 68% na safra passada, quando houve mais pressão de praga. Os números são medidos pelo próprio grupo, que compara o consumo atual ao do próprio manejo anterior, nas mesmas áreas.
Da pastagem degradada ao ganho na seca
A transformação no Roncador começou no início dos anos 2000, quando o grupo enfrentava um cenário em que 70% a 80% das áreas de pastagem estavam degradadas. As primeiras intervenções foram no manejo do rebanho, com ajuste do trato dos animais e descarte de improdutivos.
Em 2002, o grupo começou a plantar, já sob plantio direto e integrado à pecuária. Terminada a primeira colheita de soja, o gado entrou na área para pastejar a palhada e ganhou 831 gramas por dia durante a seca, período em que o boi costuma parar de engordar. Foi esse resultado que consolidou a integração.
“Naturalmente surgiu a integração lavoura-pecuária, que eu considero, dentro de todas as técnicas de um sistema regenerativo, mais importante quando é possível, porque é o que mais imita a natureza. A gente tem uma sucessão de culturas, a gente tem o mamífero andando por ali e fazendo reciclagem de nutrientes”, afirmou Penido.
Sopa de floresta e tecnologia no controle de pragas
Em 2019 começou o monitoramento de pragas e os biodefensivos. A transição exigiu mudanças operacionais, como a adaptação de pulverizadores, ajustes nas caldeiras e o deslocamento de parte das aplicações para o período noturno, preservando a eficiência dos micro-organismos. Também foi criada a “sopa de floresta”.
“A planta, como na floresta, ela não absorve direto os nutrientes. Ela precisa das colônias de microrganismos. Então nós começamos a multiplicar o solo da floresta em tanque e fazer o que a gente chamou de sopa de floresta, que é um condicionador de solo, para repovoar as áreas produtivas e buscar fazer um solo supressivo”, explicou ele.
Atualmente, 100% da área de soja recebe produtos biológicos, mas o químico continua sendo aplicado nessas mesmas áreas, em quantidade menor e com moléculas escolhidas para não inviabilizar os micro-organismos.
“Tem esse cuidado de quais são as moléculas que conversam com os bioinsumos para ter eficiência, e utilizando o mínimo possível de químico, mas sempre utiliza um pouco”, disse Penido, que atribui parte do corte a drones e ferramentas de inteligência artificial, usados para concentrar a aplicação onde o químico é necessário.
Nutrição própria substitui fertilizantes químicos
Em outra frente, está o reaproveitamento de resíduos e da mineração local. Com um confinamento de corte na propriedade, o grupo passou a compostar o esterco animal. Ao mesmo tempo, identificou em uma jazida de calcário da fazenda um minério rico em nutrientes, batizado de silicálcio.
No primeiro ano de testes com o silicálcio, a área tratada apresentou um ganho adicional de 8,89 sacas de soja por hectare “Hoje, a combinação do composto orgânico do confinamento com o silicálcio, nos permite substituir o fertilizante químico completamente em várias áreas da fazenda”, ressaltou Pelerson.
Desta forma, a fazenda passou a produzir dentro da porteira parte do que antes comprava: o adubo no confinamento, o remineralizador na mineração e os microrganismos no solo da floresta.
“A gente está deixando de cuidar do sintoma e cuidando da causa. A gente está arrumando um ecossistema”, reforçou o presidente durante o encontro. “Fomos em busca de resultados e chegamos na sustentabilidade. Então, isso ser viável economicamente é a primeira coisa, sempre olhar para isso”, concluiu.
Saiba mais
Ingrediente ativo por hectare – Ingrediente ativo é a substância que efetivamente age sobre a praga, a doença ou a planta daninha dentro de um defensivo. O restante do produto comercial é composto por veículos, solventes e adjuvantes, que não têm ação direta sobre o alvo. Medir o ingrediente ativo aplicado por hectare permite comparar manejos diferentes sem que a conta seja distorcida por concentrações ou formulações distintas, já que dois produtos podem ter volumes de calda parecidos e quantidades muito diferentes de substância ativa. É por isso que a redução costuma ser expressa nessa unidade, e não em litros ou quilos de produto comercial.
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