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Produtor com ILPF enfrenta El Niño com maior vantagem; entenda

Produtor com ILPF enfrenta El Niño com maior vantagem; entendaSoja Regenerativa. Foto: Divulgação/ADM

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Resumo:

  • Sistemas de integração lavoura-pecuária podem dar retorno financeiro positivo em menos de dois anos, enquanto arranjos com árvore demoram mais, conforme o manejo florestal, segundo a Embrapa Agrossilvipastoril.
  • Nos experimentos de Sinop, os sistemas integrados apresentaram taxas de infiltração superiores e perdas de solo significativamente menores que os convencionais.
  • O componente florestal reduz radiação incidente, temperatura e demanda evaporativa, o que diminui a perda de água da lavoura em períodos de calor.
  • O El Niño de intensidade muito forte já foi confirmado por órgãos oficiais e está associado a maior risco de atraso das chuvas, deficiência hídrica e temperaturas elevadas no Centro-Oeste.
  • A adoção depende de assistência técnica, capital, escala e características da propriedade, infraestrutura e acesso a mercados.

Por André Garcia

O produtor que já adotou sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) entra na safra 2026/27 com vantagem para enfrentar o El Niño forte, que ameaça desregular o início das chuvas no Centro-Oeste. Isso porque palhada, cobertura permanente e árvores retêm mais água no solo e reduzem a temperatura e a evaporação na lavoura.

A avaliação é dos pesquisadores Cornélio Alberto Zolin e Frank Freire Capuchinho, da Embrapa Agrossilvipastoril, em Sinop. Em entrevista ao Gigante 163, eles explicaram que, além de aumentar a resiliência da lavoura a períodos de déficit hídrico, esses sistemas podem dar retorno financeiro positivo em menos de dois anos.

“Os sistemas integrados são considerados uma estratégia de adaptação ao risco climático porque atuam tanto sobre a vulnerabilidade física do sistema produtivo quanto sobre a concentração do risco econômico”, afirma Cornélio Alberto Zolin, pesquisador em gestão de recursos hídricos e resiliência climática.

Palhada e árvores seguram água

A conservação de água no solo é o mecanismo principal. Palhada, culturas de cobertura, rotação e plantio direto aumentam a infiltração e reduzem a perda por escoamento. Nos sistemas integrados, entra um segundo efeito, o do componente florestal.

“O componente florestal dos sistemas integrados pode modificar o microclima, reduzindo a radiação incidente, a temperatura e a demanda evaporativa”, afirma Zolin.

A Embrapa Agrossilvipastoril mantém em Sinop uma plataforma experimental de sistemas integrados estabelecida em 2011, hoje com cerca de 150 hectares (ha), onde compara arranjos de lavoura, pecuária e floresta em experimentos de longa duração.

“As pesquisas indicam que os sistemas de integração apresentaram taxas de infiltração superiores e perdas de solo significativamente menores em relação aos sistemas convencionais”, diz Zolin.

Em estudo do qual Zolin é coautor, feito na estação de Sinop, a área em ILPF perdeu 34,52 milímetros de água por escoamento entre outubro de 2012 e setembro de 2013, 28% menos que a lavoura em plantio direto, e 0,23 tonelada de solo por hectare, quase quatro vezes menos. Essas são parcelas experimentais, não lavoura comercial.

Retorno varia com o arranjo

A integração lavoura-pecuária pode dar retorno financeiro positivo em menos de dois anos; os sistemas agrossilvipastoris, que incluem árvore, demandam mais tempo conforme o manejo florestal. Ganhos de ciclagem de nutrientes, qualidade de solo e resiliência se estabilizam ao longo de vários ciclos produtivos, não nas primeiras safras.

Há ainda um efeito de caixa. A diversificação distribui a produção e as fontes de receita ao longo do tempo, reduzindo a dependência de uma única atividade.

Em estudo da Embrapa com o Banco Mundial em duas fazendas de Mato Grosso, o sistema de ILPF exigiu cerca de US$ 1.024 por hectare, valor semelhante ao da lavoura em grande escala, contra US$ 359 por hectare da pecuária extensiva. O Valor Presente Líquido Anual do sistema integrado foi 13 vezes o da lavoura e 41 vezes o da pecuária extensiva, com índice de lucratividade de 1,36.

El Niño muito forte já confirmado

O El Niño, de intensidade muito forte, já foi confirmado por órgãos oficiais nacionais e internacionais e está associado a um maior risco de atraso ou irregularidade no início das chuvas, períodos de deficiência hídrica e temperaturas elevadas no Centro-Oeste.

“Para a soja, a implantação da lavoura depende não somente da ocorrência de uma primeira chuva, mas que as precipitações sejam regulares e permitam uma umidade do solo adequada para germinação e estabelecimento”, afirma Frank Freire Capuchinho, pesquisador em agricultura e climatologia.

Para a Embrapa, a lógica é combinar as frentes: prevenir e reduzir o risco com boas práticas e transferir o risco remanescente por meio do Seguro Rural e do Proagro.

“A questão geral é antecipar decisões e combinar medidas de prevenção, redução do impacto e transferência do risco”, resume Capuchinho.

Saiba mais

ILPF –  Integração Lavoura-Pecuária-Floresta é o nome dado aos sistemas que combinam, na mesma área, cultivo de grãos, criação de gado e produção florestal. As combinações parciais recebem siglas próprias: ILP para lavoura-pecuária, ILF para lavoura-floresta e IPF para pecuária-floresta. Os arranjos com árvore também são chamados de agrossilvipastoris. A diferença entre eles está em como os componentes se organizam no espaço e ao longo do tempo, o que muda o microclima, a cobertura do solo, a disponibilidade de água e a distribuição das receitas.

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