Resumo:
- O Brasil queimou 12,7 milhões de hectares em 2025, 31% abaixo da média histórica e 58% do registrado em 2024.
- A Amazônia teve a menor área queimada em 41 anos (3,1 milhões de hectares), um ano depois do pico da série (15,8 milhões em 2024).
- O Cerrado seguiu como o bioma mais afetado e concentrou sozinho 69% de tudo que queimou no País no ano.
- Pesquisadores alertam que a queda é uma trégua: um El Niño previsto pode elevar o fogo já no fim de 2026
Por André Garcia
O Brasil queimou 12,7 milhões de hectares (ha) em 2025, 58% do registrado em 2024 e 31% abaixo da média histórica, de 18,4 milhões de ha por ano. Dados do MapBiomas divulgados nesta terça-feira, 21/7, mostram uma quebra na sequência de anos de expansão do fogo, puxada principalmente pela Amazônia.
Contudo, a floresta, que teve a menor área queimada em 41 anos, segue sob alerta. Isso porque, de acordo com especialistas, o retorno cada vez mais frequente do fogo vem acabando com a capacidade da vegetação de se recuperar.
Amazônia puxa a retração
Um ano depois de registrar a maior área queimada da série (15,8 milhões de ha em 2024), o bioma queimou 3,1 milhões de ha em 2025, cerca de um quinto do ano anterior e a menor marca em 41 anos de monitoramento.
“Nos últimos 41 anos, 2025 foi o menor ano em relação ao que queimou. Realmente foi fora da curva”, afirmou Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo, durante a apresentação dos dados.
Para os pesquisadores, a retração combina fatores climáticos e humanos: o atraso do período chuvoso, a queda do desmatamento, que reduz as fontes de ignição, o reforço das ações de prevenção e combate depois de 2024 e a pressão sobre os estados para se organizarem contra o fogo.
“Foi um combo de coisas, mas muito ajudado também pela questão climática”, resumiu Alencar.
Floresta sem tempo de se recuperar
A queda de 2025 não apaga o histórico da floresta, fragilizada por décadas de desmatamento e queimadas. Segundo o relatório, na Amazônia 31,6% da área já queimada volta a pegar fogo em até dois anos, o intervalo de retorno mais curto entre todos os biomas do País.
“Na Amazônia, onde a vegetação não é adaptada ao fogo, intervalos tão curtos entre os eventos reduzem o tempo de recuperação da floresta e aumentam o risco de novos incêndios, mais intensos e degradantes”, diz Luiz Felipe Martenexen, pesquisador da equipe MapBiomas Fogo e do IPAM.
Na prática, cada passagem do fogo deixa a floresta mais aberta e mais seca, o que facilita a entrada da próxima queimada. Sem tempo para se recuperar, a mata vai perdendo a capacidade de se regenerar. O impacto é sentido em todo o País, com prejuízos na regulação do regime de chuvas que sustenta as lavouras no Centro-Sul.
Esse processo pode comprometer progressivamente a regeneração e tornar a floresta cada vez mais vulnerável ao fogo.
“Na Amazônia, os estudos demonstram que o retorno do fogo deveria acontecer, dependendo do tipo de vegetação, num intervalo de 200 a 1.000 anos. Isso significa que a floresta vai precisar de um tempo para se recuperar depois desse distúrbio. Assim como o cerrado precisa, em média, de 6 a 12 anos entre fogos” ressalta Ane.
Alerta em ano de El Niño
A série histórica ajuda a entender por que a queda de 2025 preocupa mesmo sendo boa notícia. Segundo os pesquisadores, os anos de El Niño concentram as maiores áreas queimadas, e o pior costuma vir depois. Diante das previsões para este ano, Ane reforça a necessidade de preparação para os próximos ciclos.
“Nos anos de El Niño, quando o fenômeno começa, normalmente a área queimada já é maior. Mas é o ano seguinte que tem o maior impacto. A gente tem que se preparar mesmo para este ano, porque a inflamabilidade da paisagem é um dos elementos importantes para que o fogo aconteça e se propague”, explicou Alencar.
Saiba mais
Regime de fogo: é o padrão com que o fogo ocorre em um território — quanto queima, o tamanho das manchas, com que frequência retorna, o intervalo entre um incêndio e outro, a época do ano e a severidade. Acompanhar como esse regime muda ao longo do tempo é o que permite definir prioridades e ações de prevenção.
Área queimada e foco de calor: não são a mesma coisa. O foco de calor indica atividade de fogo quase em tempo real, mas não diz quanto queimou. A área queimada é a “cicatriz” deixada no terreno, mapeada por satélite — mostra onde e quanto o fogo de fato atingiu.
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