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Cerrado concentra 7 de cada 10 hectares queimados no Brasil

Cerrado concentra 7 de cada 10 hectares queimados no BrasilCausa humana e repetição de incêndios preocupa especialistas. Foto: Mayke Toscano/Secom-MT

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Resumo:

  • O Cerrado foi o bioma que mais queimou no Brasil em 2025, com 8,7 milhões de hectares atingidos pelo fogo, o equivalente a quase sete de cada dez hectares queimados no país no ano
  • Foi também o que menos recuou: enquanto a Amazônia e o Pantanal despencaram, a área queimada no Cerrado ficou apenas 9% abaixo da média histórica, o que explica seu protagonismo no ano
  • No acumulado de 41 anos, é o bioma mais afetado do País, com 45,3% do território já atingido pelo fogo ao menos uma vez, a maior proporção entre os grandes biomas
  • A maior parte das queimadas ocorre em vegetação nativa, sobretudo na savana adaptada ao fogo, mas as ignições são hoje majoritariamente de origem humana, o que vem alterando o regime natural do bioma
  • Com 66% da área já atingida queimando mais de uma vez, especialistas alertam que o encurtamento do intervalo entre incêndios compromete a capacidade de recuperação da vegetação

Por André Garcia

O Cerrado foi o bioma que mais queimou no Brasil em 2025. Foram 8,7 milhões de hectares (ha) atingidos pelo fogo, o equivalente a 69% de toda a área queimada no Brasil no ano passado, ou quase sete de cada dez hectares. Os dados fazem parte da segunda edição do Relatório Anual do Fogo, divulgada pelo MapBiomas nesta terça-feira, 21/7.

Mesmo seguindo uma tendência nacional de recuo frente à média histórica, o bioma ainda é o mais afetado do país, com a maior média anual de área queimada: 9,6 milhões de ha. Enquanto o índice na Amazônia e no Pantanal despencou 56% e 86%, respectivamente, no Cerrado a porcentagem de queda foi de apenas 9%.

“No Cerrado, o fogo faz parte da dinâmica natural do bioma, mas a incidência atual, marcada por eventos mais frequentes e extensos, pode ultrapassar a capacidade de recuperação da vegetação. Quando esse regime se intensifica, aumentam os riscos de perda de biodiversidade e degradação do bioma”, afirma Vera Laísa Arruda, pesquisadora das equipes MapBiomas Cerrado e MapBiomas Fogo e do IPAM.

A liderança de 2025 não é um ponto fora da curva. No acumulado de 41 anos, o Cerrado é o bioma que mais queimou no Brasil, respondendo por 43,5% de toda a área atingida pelo fogo ao menos uma vez desde 1985.

Além disso, 45,3% de todo o território do Cerrado já pegou fogo em algum momento das últimas quatro décadas. É a maior proporção entre os grandes biomas do país.

Fogo natural x causa humana

Diferentemente da Amazônia, o Cerrado é uma savana que evoluiu com o fogo.Boa parte de sua vegetação depende ou tolera as chamas, e queimar de tempos em tempos faz parte do ciclo natural do bioma. Não por acaso, 87,3% da área queimada ocorre em vegetação nativa, com predomínio da formação savânica, que responde sozinha por 58,8% do total.

O problema, segundo os especialistas, não é o fogo em si, mas a causa e a frequência. Hoje, a maior parte das ignições no Cerrado é de origem humana, o que vem alterando o regime natural do bioma. As áreas queimam de forma mais recorrente e criam cicatrizes de fogo cada vez maiores.

“Esse fogo, na maioria das vezes, não é natural. Não é iniciado por raios ou descargas elétricas. Grande parte do fogo no Brasil é iniciada pela ação humana, mesmo em ambientes onde há incêndios por causas naturais“, afirmou Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo.

Na prática, essas cicatrizes são a marca deixada no terreno depois que uma área queima, visível nas imagens de satélite. Na região, segundo o MapBiomas, cerca de um terço dessas manchas (36,3%) tem entre 500 e 10.000 ha, o que indica incêndios extensos, que avançam por longas distâncias antes de serem contidos.

Dano recorrente

Outro dado preocupante é que, no Cerrado, 66% de toda a área já atingida pelo fogo queimou mais de uma vez, uma das maiores taxas de reincidência do país. Segundo os especialistas, o ponto crítico é o intervalo entre uma queimada e outra, já que o encurtamento desse intervalo compromete a regeneração.

“O Cerrado precisa, em média, de 6 a 12 anos entre fogos”, explicou Ane Alencar, diretora de Ciências do IPAM e coordenadora do MapBiomas Fogo. Quando as chamas voltam antes disso, a vegetação não se restabelece por completo, e o fogo, que deveria renovar o Cerrado, passa a empobrecê-lo.

Saiba mais

Regime de fogo: é o conjunto de características que definem como o fogo se comporta em um território ao longo do tempo. Inclui a extensão da área queimada, o tamanho das manchas, a frequência com que o fogo retorna, o intervalo entre uma queimada e outra, a época do ano em que ocorre e a intensidade das chamas. Quando um desses elementos muda — o fogo passando a queimar mais vezes, em áreas maiores ou fora da estação natural —, diz-se que o regime de fogo do bioma foi alterado. É esse acompanhamento, ano a ano, que permite identificar onde o fogo deixou de ser um processo natural para se tornar um problema.

 

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