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Excesso ou escassez de chuva: como agro pode driblar a crise hídrica

Excesso ou escassez de chuva: como agro pode driblar a crise hídricaO agronegócio tem papel crucial no cenário. Foto: Secom-MT.

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Por André Garcia

A Terra ultrapassou as fronteiras seguras para a água doce devido à poluição, à extração excessiva e às mudanças no uso do solo. Segundo a Organização Mundial das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), isso está levando os principais sistemas agroalimentares do mundo ao ponto de ruptura. O alerta, reforçado neste 22 de março, Dia Mundial da Água, evidencia o prejuízo social e econômico da instabilidade hídrica.

A situação tem poupado poucos países e o Brasil já sente o impacto na balança comercial. As importações de soja para a China, seu principal parceiro comercial, caíram 36% nos dois primeiros meses deste ano em relação ao mesmo intervalo de 2022, conforme informado pelo serviço alfandegário chinês na segunda-feira, 20/3. De acordo com a agência Reuters, a redução se deu pelo atraso da colheita brasileira.

Neste contexto, o agronegócio tem papel crucial. É que aponta o estudo “A virada da maré: um apelo à ação coletiva”, ao reforçar que uma relação inteiramente nova com este recurso natural é a única maneira de manter as estações chuvosas intactas e garantir o limite climático de 1,5°, estabelecido como meta para este século. A publicação é da Comissão Global de Economia da Água (GCEW) e foi divulgada pouco antes do Dia Mundial da Água.

Dentre as soluções sugeridas, estão os investimentos em sistemas de irrigação de precisão, no plantio de culturas menos intensivas em água e no desenvolvimento de uma agricultura mais resistente à seca. Como já abordado pelo Gigante 163, o melhoramento genético tanto das plantas quanto dos animais tem papel fundamental para estas mudanças.

É preciso ainda fortalecer os sistemas de armazenamento de água doce e o desenvolvimento da economia urbana circular de água, especialmente via reciclagem de águas residuais industriais e urbanas, além de reduzir o impacto das pegadas hídricas deixadas pela indústria.

A GCEW também deixa claro que o fato de água ser gerenciada localmente é preocupante. Isso significa que os governos não reconhecem que rios, águas subterrâneas e fluxos atmosféricos de vapor de água cruzam fronteiras internacionais. Logo, para reverter o quadro é preciso tratar o ciclo da água como um bem comum global.

Além disso, de acordo com os pesquisadores, o recurso não deve ser tratado apenas como uma mercadoria ou uma necessidade humana básica, mas como um fator crucial para sustentar ecossistemas, apoiando os meios de subsistência e promovendo o crescimento econômico.

Prejuízos

Sem uma mudança radical, o prejuízo pode se acentuar, já que um ciclo de chuvas cada vez menos confiável resulta ainda no aumento no custo da energia e na redução da capacidade de produção e geração de valor. Resultado: atrasos no desenvolvimento de culturas perenes das principais commodities exportadas e pastagens deterioradas, atrapalhando o desenvolvimento dos rebanhos.

“A mudança climática está desequilibrando ainda mais o ciclo global da água, e isto está levando a mais e mais desastres relacionados à água, sejam secas, enchentes, incêndios ou falhas nas colheitas, que estão devastando tanto os países pobres quanto os ricos. No ano passado, países do Paquistão à China, passando pelo Brasil, foram atingidos por eventos extremos relacionados à água”, diz trecho do estudo.

Alerta para Mato Grosso

O alerta deve ser observado com atenção pela agropecuária de Mato Grosso. O maior produtor de grãos do país vai na contramão do ganho de superfície de água registrado na maioria dos estados em 2022, com perda de -48%. Embora os três biomas mato-grossenses tenham apresentado incremento no período, ao se comprar a série histórica, iniciada em 1985, o cenário é de perdas.

Para exemplificar, em 2022 a superfície de água anual do Pantanal aumentou pela primeira vez desde 2018. Entretanto, o bioma ainda passa por um período seco, com diferença de 60,1% na média da série histórica (1985 a 2022). Os dados, já noticiados pelo Gigante 163, são do MapBiomas e mostram ainda que nas últimas três décadas a retração foi de 81,7%.

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