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Pantanal: seca e La Niña podem trazer tragédia pior que a de 2020

Pantanal: seca e La Niña podem trazer tragédia pior que a de 2020Em 2020 70 milhões de animais foram dizimados. Foto: Joédson Alves/ Agência Brasil

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Por André Garcia

De janeiro até o dia 12 de maio deste ano, o Pantanal registrou 772 focos de incêndio, aumento de 1.186% em relação a 2023, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Embora a marca seja menor que a de 2020, quando houve 1.979 registros no mesmo período, outros fatores podem resultar em uma tragédia ainda maior.

Como já mostramos, mesmo estando no período chuvoso, o cenário no bioma é de seca extrema. Com acumulado de chuvas abaixo do esperado, a Bacia do Rio Paraguai, nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, segue registrando níveis baixos em diversos municípios.  A estiagem por aqui – como as enchentes no Rio Grande do Sul –  mostra que é preciso encarar a realidade: o clima já não é mais o mesmo, o que deixa o produtor cada dia mais vulnerável.

De acordo com o Sistema Geológico do Brasil (SGB), se nos próximos chover dentro da média (160 mm), 2024 pode viver uma situação semelhante a de 2020, quando o Rio Paraguai chegou a -32 cm. Se cair menos que isso, a situação pode ser mais grave.

Há pouco mais de três anos, quando foi registrada a pior seca do bioma em 50 anos, mais de 40 mil km² ou mais de 27% da cobertura vegetal foram afetados pelo fogo. À época, especialistas apontaram que pelos 70 milhões de animais vertebrados e 4 bilhões de invertebrados foram dizimados.

Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Dados do boletim extraordinário do Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai indicam que o nível em Ladário (MS), estação de referência, estava em 1,44 m na semana passada, abaixo da média de 3,66 m. Em Porto Murtinho (MS), a cota é de 2,28m, enquanto o esperado era de 4,75 m.

Na região sul da bacia, no município de Miranda (MS), o último nível observado foi de 1,42 m, e a média é de 2,85 m. Em Aquidauana (MS), a marca atual é de 2,01 m, quando o esperado é de 3,12 m.

Ao longo de 2020, os focos ultrapassaram os 22116, com pico nos meses de agosto (5935), setembro (8106) e outubro (2856), os meses mais secos na região. De acordo com projeções do SGB, o pior momento da seca pode ocorrer justamente em outubro, com cota mínima negativa no nível dos rios.

“Em um cenário de chuvas abaixo da normalidade, poderemos ter algo semelhante ao que houve em 1964, 1971 ou 2021, que foram as piores secas da história. Em 2021, o rio em Ladário chegou a -61 cm e foi um cenário muito complicado, com restrições de navegação e dificuldades para o escoamento da produção”, explicou o pesquisador em geociências do SGB, Marcus Suassuna.

La Niña

Com o fim do El Niño, responsável por chuvas e secas intensas durante o verão em 2023 e 2024, surge outra preocupação: o La Niña. À Agência Fapesp, o professor Pedro Luiz Côrtes, do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo, explicou que o intervalo entre os fenômenos será mais curto que o usual.

Esse período, chamado de neutralidade, costuma durar muitos meses, mas neste ano acontecerá apenas entre os meses de abril e junho. Assim, enquanto El Niño gerou estiagem no Norte e chuvas intensas no Sul, o La Niña deverá inverter com fortes chuvas na Amazônia e temperaturas elevadas nas faixas central e sul do País.

“O aquecimento intenso da região do Pantanal deve permanecer até o segundo semestre, então é importante já estarmos alertas para redobrar a vigilância e reforçar as equipes de combate com o risco de incidência de queimadas e incêndios florestais. Vamos ter um período de estiagem significativo e a temperatura deve permanecer acima da média do período”, informou.

O que está sendo feito?

No último mês, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul assinaram um termo de cooperação com o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (MMA) para a proteção e desenvolvimento sustentável do Pantanal. O compromisso inclui a padronização da legislação, além da preparação, resposta e responsabilização a incêndios florestais.

Além disso, o Mato Grosso do Sul já desembolsou R$ 50 milhões para contratar e posicionar brigadistas em áreas mais suscetíveis ao fogo, firmou parcerias com o Mato Grosso, bombeiros e ONGs que combateram as chamas de 2020. Em ambos os estados, a queima controlada foi impedida neste ano.

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