O prolongamento da instabilidade no Estreito de Ormuz — rota marítima vital no Oriente Médio que foi interditada devido às tensões entre Washington e Teerã — promete inflacionar o preço dos fertilizantes em até 30% no decorrer de 2026. O alerta é de um relatório da Oxford Economics enviado à Exame.
A expectativa anterior era de reabertura do estreito em maio, o que chegou a derrubar brevemente os preços da ureia, mas a Oxford Economics revisou sua projeção. Agora, a previsão é de que as restrições de navegação persistam até o encerramento do segundo trimestre, iniciando uma normalização lenta apenas a partir de julho.
Mesmo com a reabertura parcial prevista para o segundo semestre, o congestionamento nos portos deve manter o fornecimento pressionado até o final do ano, especialmente se cargas de energia tiverem prioridade sobre fertilizantes.
Margens apertadas
O grande desafio atual vai além do encarecimento dos fertilizantes. O cenário é agravado pela desvalorização simultânea das commodities agrícolas, gerando uma pressão sobre a rentabilidade do produtor ainda mais forte do que a registrada em 2022. Naquele ano, apesar do recorde nos custos dos insumos, o valor de venda dos grãos operava em patamares elevados, o que amortecia o impacto.
Refletindo esse descompasso, o indicador que mede o poder de compra do produtor (relação entre o preço dos grãos e o da ureia) despencou em abril, atingindo o pior resultado desde o início dos registros oficiais, em 1960.
“Ao levar em conta os preços das culturas, a ureia está mais cara para os agricultores do que esteve em 2022”, afirma o relatório, assinado pelo economista-chefe de commodities da Oxford Economics, Kiran Ahmed.
Quem vai sofrer mais
Agricultores em países de menor desenvolvimento econômico são os mais vulneráveis: têm menor capacidade financeira para manter o volume de aplicação quando os preços sobem, e seus governos têm pouco espaço fiscal para oferecer subsídios ou suporte emergencial.
Os dados da FAO mostram o que aconteceu em 2022: o uso de fertilizantes nitrogenados caiu 7,9% nos países menos desenvolvidos, mais do que o dobro da queda global de 3,4%. A Oxford Economics avalia que o episódio atual pode gerar impacto ainda maior, dado o nível historicamente baixo da relação grãos-ureia.
Em economias avançadas e em países que subsidiam fortemente fertilizantes, como a Índia, a aplicação por hectare é tão elevada que uma redução de 10% a 15% tem impacto mínimo sobre a produtividade. Em países onde a aplicação já é baixa, qualquer corte adicional tem efeito desproporcional sobre as colheitas.
Quais culturas ficam mais expostas
Arroz, milho e trigo são os maiores consumidores de fertilizantes nitrogenados. Soja e leguminosas usam muito menos e podem até se beneficiar da situação, à medida que agricultores substituem culturas intensivas por alternativas menos dependentes de insumos.
Nos Estados Unidos, a área plantada com milho deve recuar em favor da soja. Na Austrália, relatos indicam migração do trigo para leguminosas.
O calendário agrícola agrava o problema: para o plantio de verão no Hemisfério Norte, período de maior exposição atual, de junho a setembro, a maior parte dos fertilizantes precisaria ter sido adquirida após o início do conflito, a preços mais altos e com oferta mais restrita.
LEIA MAIS:
Crise do enxofre acelera avanço dos bioinsumos no agro
Brasil busca solução para fertilizantes na Ásia Central
Margens apertadas e guerra devem reduzir área da soja na safra 26/27
Guerra no Oriente Médio encarece a conta para o produtor brasileiro

