Resumo
- Facções como PCC e Comando Vermelho estão usando a infraestrutura do agronegócio (propriedades, transporte e rotas) para o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro, aumentando a insegurança jurídica e a concorrência desleal.
- A localização da Amazônia e as redes fluviais são exploradas para transportar cocaína. Cargas lícitas de soja, milho e carne são contaminadas com drogas antes de serem exportadas para a Europa e África.
- O crime organizado financia e se infiltra em disputas fundiárias, impulsionando a grilagem de terras e o desmatamento ilegal (mais de 90% do desmate na Amazônia vira pastagem). Conflitos por terra cresceram 43,8% entre 2015 e 2024.
- Na pecuária, as facções lavam dinheiro, com a compra e venda de gado com dinheiro ilícito para gerar receita legítima com nota fiscal. Falsificam registros e simulam rebanhos para justificar movimentações financeiras. O crime também faze transferência de gado criado em áreas desmatadas ilegalmente para propriedades regulares antes do abate.
- Além roubo de maquinário, promovem incêndios criminosos, adulteram fertilizantes, causando prejuízos milionários e perda de produtividade.
- Eles fazem uso de empresas de fachada e contratos fictícios, como o “golpe do milho”, que movimentou R$ 120 milhões.
- Os pesquisadores do Insper recomendam uma política nacional de segurança rural, integração de inteligência entre órgãos e países vizinhos, rastreamento de transações financeiras e uso de satélites para rastrear grãos, gado e madeira.
Por André Garcia
O crime organizado está ampliando sua presença no agronegócio brasileiro e transformando propriedades rurais, atividades agropecuárias e estruturas de transporte em instrumentos para o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. A atuação de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) já envolve grilagem de terras, desmatamento ilegal, criação e comercialização de gado, além de roubos, fraudes e extorsões que afetam diretamente os produtores rurais.
Esse é o cenário descrito no estudo Ilícitos no agronegócio brasileiro: caracterização, riscos e estratégias de enfrentamento, elaborado por Alberto Pfeifer e Guilherme C. Gomes, do Insper Agro Global. Segundo os pesquisadores, desde 2015 o crime rural passou por uma transformação, com organizações criminosas de atuação nacional e internacional incorporando atividades antes praticadas por pequenas quadrilhas.
Para os produtores que atuam dentro da legalidade, as consequências vão além dos riscos à segurança. A presença do crime organizado amplia a insegurança jurídica sobre a propriedade da terra, desestimula investimentos e cria condições de concorrência desleal com agentes que utilizam terras griladas, produtos contrabandeados ou dinheiro de origem criminosa.
O estudo destaca a localização geográfica da Amazônia, próxima a países produtores de cocaína e atravessada por extensas redes fluviais, como um fator explorado pelo crime organizado. Segundo o Insper, o PCC-Primeiro Comando da Capital concentra parte de sua atuação no controle de rotas de transporte e exportação de produtos agrícolas na região.
A organização utiliza estruturas logísticas do agronegócio, incluindo caminhões e carregamentos de grãos e carne, para ocultar drogas destinadas aos mercados internacionais. O estudo relata que cargas lícitas de soja e milho podem ser contaminadas com cocaína antes de chegar aos portos, de onde a droga segue para países da Europa e da África.
O uso criminoso dessas estruturas coloca em evidência uma vulnerabilidade das cadeias agropecuárias: os mesmos sistemas de transporte, armazenamento e comercialização que permitem movimentar grandes volumes de produção também podem ser explorados por organizações criminosas.
A associação entre crime organizado e desmatamento ilegal é outra preocupação dos pesquisadores. O estudo identifica a grilagem como uma das principais atividades criminosas relacionadas à terra, frequentemente associada à derrubada de florestas, à mineração ilegal e ao tráfico de drogas.
Entre 2015 e 2024, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra citados no documento, o número de ocorrências de conflitos por terra cresceu 43,8% no Brasil. As disputas envolveram um total de 75 milhões de hectares e incluem invasões, expulsões, destruição de plantações e grilagem.
A atuação de organizações criminosas em conflitos fundiários é apontada como um dos mecanismos para assumir o controle de territórios. Os pesquisadores relatam que facções podem financiar ou se infiltrar em grupos envolvidos nessas disputas, criando instabilidade para facilitar a ocupação de terras destinadas a atividades ilícitas.
Outro ponto destacado pelo estudo é a utilização da pecuária bovina para ocultar recursos provenientes de atividades criminosas. Segundo os autores, a compra de animais com dinheiro de origem ilícita, seguida da venda com emissão de nota fiscal, permite apresentar como receita legítima valores obtidos com o crime.
O estudo também abordou o chamado “gado de papel”, no qual criminosos simulam a existência de rebanhos ou falsificam registros de animais para justificar movimentações financeiras. O documento relata uma operação em Minas Gerais na qual autoridades bloquearam R$ 848 milhões de traficantes envolvidos em um esquema que incluía a compra de gado com dinheiro vivo, o registro falso de nascimentos de bezerros e vendas superfaturadas a frigoríficos.
Há ainda a chamada “lavagem de gado”, prática distinta da lavagem de dinheiro, em que animais criados em áreas desmatadas ilegalmente são transferidos para propriedades regulares antes do abate, ocultando sua origem.
Em 2025, uma operação do Ibama na Amazônia apreendeu 7.061 cabeças de gado, avaliadas em R$ 30 milhões, embargou 2,1 mil hectares e aplicou R$ 49 milhões em multas por indícios dessa prática, conforme os dados reunidos pelo Insper.
O estudo também aponta que mais de 90% do desmatamento na Amazônia tem como primeiro uso a formação de pastagens. Essa informação, associada aos mecanismos de lavagem de gado, evidencia a importância do controle da origem dos animais na cadeia produtiva.
Roubos, incêndios e fraudes atingem produtores
Além da ligação com o tráfico e a lavagem de dinheiro, o estudo reúne dados sobre crimes que provocam prejuízos diretos às propriedades rurais.
O roubo de tratores, colheitadeiras, caminhonetes e sistemas de irrigação cresceu 37,5% no primeiro semestre de 2025, na comparação com o período correspondente de 2024, segundo dados do Grupo Tracker citados pelos pesquisadores. Cerca de 70% das ocorrências foram registradas em São Paulo.
Incêndios criminosos também aparecem entre as ameaças. Em 2024, 59 mil hectares de canaviais foram atingidos por incêndios criminosos em São Paulo, com prejuízos estimados em R$ 350 milhões. O levantamento citado pelo estudo calcula que as perdas nacionais tenham chegado a R$ 1 bilhão. Parte desses episódios ocorreu em áreas que já haviam sido alvo de tentativas de extorsão.
Outro problema está na falsificação e adulteração de insumos. Entre 2021 e 2024, foram registradas 200 ocorrências de apreensão de fertilizantes adulterados, de acordo com levantamento da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) reproduzido no documento.
Em um dos casos, investigado pela Polícia Civil do Paraná em 2025, uma organização criminosa misturava calcário e silicato a fertilizantes desviados e comercializava produtos com teor nutritivo inferior ao declarado. O esquema provocou prejuízos estimados em mais de R$ 15 milhões. Para os produtores, além do dano financeiro, a adulteração compromete os resultados da adubação e a produtividade das lavouras.
Na comercialização de grãos, o estudo destaca esquemas de estelionato envolvendo empresas de fachada, contratos fictícios e intermediários que simulam operações de compra e venda. Um desses esquemas, conhecido como “golpe do milho”, teria movimentado R$ 120 milhões em cinco anos, com negócios nos quais o produto não era entregue ou o pagamento não chegava ao vendedor.
Combate ao crime exige maior integração das autoridades
Para Pfeifer e Gomes, a expansão das organizações criminosas sobre o agronegócio exige uma mudança na forma de investigar e combater os delitos rurais.Os pesquisadores avaliam que a atuação isolada das forças de segurança é insuficiente diante de organizações que combinam crimes ambientais, tráfico de drogas, fraudes financeiras e controle de atividades econômicas.
Entre as recomendações estão a criação de uma política nacional de segurança voltada ao campo, a integração entre órgãos federais e estaduais, o fortalecimento da cooperação com países vizinhos e a formação de núcleos especializados de inteligência rural.
O estudo também propõe ampliar o rastreamento de transações financeiras para identificar quem financia as atividades criminosas, além de utilizar tecnologias de monitoramento por satélite e sistemas de rastreabilidade de grãos, gado e madeira.
Os autores alertam ainda para o possível avanço de fraudes envolvendo fintechs, criptomoedas e operações digitais com produtos agropecuários, mecanismos que poderão dificultar a identificação da origem de recursos ilícitos.
O trabalho, de caráter exploratório e preliminar, reconhece que a subnotificação dos crimes rurais e a ausência de estatísticas nacionais consolidadas dificultam a mensuração completa dos prejuízos. Ainda assim, os casos reunidos apontam para a necessidade de tratar a criminalidade rural como um problema que alcança diferentes etapas da produção agropecuária brasileira.
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