Resumo:
- Duas fazendas do grupo Novapec, de Rondonópolis (MT), receberam R$ 50 milhões em crédito do Bradesco, com recursos do Eco Invest Brasil, para recuperar mais de 3 mil hectares (ha) degradados com intensificação da pecuária, segundo o Brazil Stock Guide.
- O empréstimo foi estruturado em Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F), com prazo de dez anos e carência de dois anos.
- O projeto prevê correção do solo, pastejo rotacionado, manejo de água e plantio de eucalipto ao lado das áreas de pastejo, sem desmatar vegetação nativa.
- Segundo o Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), é a primeira operação do Eco Invest voltada à intensificação da pecuária no país. A aprovação levou cerca de um ano, e uma Área de Proteção Ambiental (APA) em uma das fazendas travou a análise.
- Em contrapartida, a Novapec terá de monitorar emissões de gases de efeito estufa, condições ambientais e práticas trabalhistas e comprovar a execução dos investimentos.
Por André Garcia
Correção do solo, pastejo rotacionado, intensificação e integração entre pecuária e floresta garantiram R$ 50 milhões em financiamento a duas fazendas de Mato Grosso. O crédito foi obtido pelo grupo Novapec, de Rondonópolis, por meio do Eco Invest Brasil, e prevê a recuperação de mais de 3 mil hectares (ha) degradados.
Esta é a primeira operação do programa do governo federal voltada à intensificação da pecuária no País. O empréstimo foi concedido pelo Bradesco, com prazo de dez anos e carência de dois anos, e estruturado por meio de uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F), instrumento de crédito usado no agronegócio.
“É uma linha com foco na sustentabilidade, com recursos e taxas atrativos, por isto mesmo com alto nível de exigência para captar, necessitando de um elevado nível de gestão, organização e compliance”, explica Arlindo Vilela, diretor da Novapec.
Árvores dividem área com o gado
O projeto busca aumentar a produtividade da pecuária em áreas já abertas, sem desmatar vegetação nativa. Os investimentos previstos incluem correção do solo, infraestrutura para pastejo rotacionado, sistemas de manejo de água e plantio de árvores, principalmente eucalipto, ao lado das áreas de pastejo.
Vilela também pretende avançar na intensificação com a Terminação Intensiva a Pasto (TIP) e a Recria Intensiva a Pasto (RIP). “Essa é a primeira vez que temos um retorno realmente efetivo por defendermos estas técnicas sustentáveis. Isso é um projeto disruptivo com um potencial fantástico para a pecuária do Mato Grosso”, enfatiza ele.
Em contrapartida, a Novapec terá de monitorar emissões de gases de efeito estufa, condições ambientais e práticas trabalhistas, além de comprovar que os investimentos previstos estão sendo executados. A operação recebeu parecer favorável de uma certificadora independente, que verifica o cumprimento desses critérios.
Aprovação exigiu um ano de preparo
Segundo o Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), que deu apoio técnico ao projeto, a estruturação e a aprovação da operação levaram cerca de um ano. Um dos principais entraves foi a existência de uma Área de Proteção Ambiental (APA) em uma das fazendas, situação que precisou ser esclarecida durante a análise.
Vilela atribui ao Imac a solução do impasse e afirma que consultorias de fora de Mato Grosso tinham um entendimento equivocado sobre a situação da propriedade:
“Se não lutarmos e buscarmos os caminhos, mesmo estando certos, seremos desaprovados em vários sentidos por pessoas que não conhecem a realidade do assunto”, completa o pecuarista.
Recurso público atrai capital privado
O Eco Invest faz parte do Plano de Transformação Ecológica do governo federal e usa um modelo de financiamento combinado, no qual recursos públicos estimulam a participação de instituições financeiras e investidores privados em projetos de longo prazo. Além da recuperação de terras degradadas, o programa financia bioeconomia, transição energética e infraestrutura verde.
O segundo leilão do programa, realizado em 2025, foi voltado à recuperação de terras degradadas. Nele, foram destinados R$ 16,5 bilhões em recursos públicos, com previsão de mobilizar R$ 30,2 bilhões em investimentos e recuperar cerca de 1,4 milhão de ha em diferentes regiões do país.
“O financiamento é uma ferramenta importante para que o produtor consiga investir em tecnologia, recuperar áreas degradadas e aumentar a produtividade sem a necessidade de abrir novas áreas. Também é uma forma de reconhecer e beneficiar os pecuaristas que já adotam boas práticas ambientais”, destaca o diretor de Projetos do Imac, Bruno de Jesus Andrade.
Bradesco amplia crédito para áreas degradadas
De acordo com publicação da plataforma Brazil Stock Guide, a operação com a Novapec integra um esforço mais amplo do Bradesco para financiar empresas do agronegócio que buscam recuperar terras degradadas e elevar a produtividade sem avançar sobre vegetação nativa.
“Esta operação demonstra como o mercado de capitais pode servir de catalisador para a transformação sustentável do agronegócio brasileiro”, disse Felipe Thut, diretor de renda fixa do Bradesco BBI, braço de banco de investimento do grupo.
Saiba mais
O que é a CPR-F? A Cédula de Produto Rural (CPR) é um título que o produtor emite para obter recursos antecipados, com o compromisso de pagar no futuro. Na versão tradicional, o pagamento é feito com a entrega do produto; na CPR Financeira (CPR-F), a dívida é quitada em dinheiro. Como é registrada e pode ser negociada, a CPR-F permite que os bancos levem o crédito rural ao mercado de capitais, o que explica a participação do braço de investimento do Bradesco na operação.
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