Por André Garcia
Diante de custos elevados, clima irregular e limites para expansão territorial, produtores de soja de Mato Grosso encontram na ciência a maior aliada da rentabilidade. Em todo o estado, pesquisas sobre manejo do solo, uso de insumos e adaptação de cultivares vêm mostrando como reduzir o risco de prejuízos e produzir mais sem abrir novas áreas.
A questão é estratégica. Projeções do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA) apontam aumento de 4,74% no custo total da soja para o ciclo 2026/2027, que pode chegar a R$ 8.039,49 por hectare. O Custo Operacional Total (COT) deve alcançar R$ 6.517,79 por hectare, avanço de 1,84%.
Não à toa, a Associação Mato-Grossense dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja-MT) avança em diagnósticos sobre o manejo do solo, uma das principais ferramentas para driblar essas estimativas. Nos centros tecnológicos da entidade, os resultados apontam para a sustentabilidade como solução para o setor.
“Quem acompanha a rotina dos centros de pesquisa consegue melhorar da porteira para dentro e muitas vezes economizar no uso de recursos, podendo direcionar para outras partes da fazenda, no intuito de trazer a maior rentabilidade dentro da sua propriedade”, explica o pesquisador e coordenador do CTECNO Parecis, Rodrigo Hammerschmitt.
Lucro em áreas arenosas
No Centro Tecnológico do Parecis, os resultados mostram que o uso de plantas de cobertura em solos arenosos, considerados pouco aptos para sistemas de duas safras, podem apresentar maior retorno por hectare quando a soja é cultivada após a braquiária, graças a melhoria das condições físicas e biológicas do solo.
“Já temos o entendimento que solos mais arenosos, abaixo de 15% de argila, não têm aptidão para fazer duas culturas. E conseguimos observar, usando soja em sucessão a uma planta de cobertura, como a braquiária, mais rentabilidade por hectare”, diz Hammerschmitt.”
Produtores – Foto: Bruno Lopes / Aprosoja MT
Tecnologia ajuda a enfrentar a seca
No Vale do Araguaia, os efeitos da seca também vêm sendo amenizados pela ciência. Lá, foram reintegrados 66 hectares de uma área experimental, onde são conduzidos ensaios de rotação de culturas, manejo de fertilidade, plantabilidade e correção do solo, com o objetivo de identificar soluções para solos siltosos, comuns na região.
Testes com milho de segunda safra em sequeiro avaliaram 29 híbridos comerciais, alcançando produtividade média de 106 sacas por hectare mesmo sob veranicos prolongados. Nos ensaios com herbicidas, foi evidenciada a importância de iniciar a semeadura “no limpo”.
“O CETECNO nos dá ferramentas fáceis e tudo que as pessoas podem usar na propriedade para poder ter maior produtividade. Aqui a gente verifica qual a melhor ferramenta para usar na plantadeira, questão de colheita, a questão de curva de nível, como fazer e qual o espaçamento”, diz a produtora de Água Boa, Bruna Freiberg.
Reduzindo custos e emissões
Outro pilar na melhoria da qualidade do solo e na mitigação de emissões de carbono é o plantio direto. Estudos conduzidos pela ESALQ em parceria com a Embrapa indicam que áreas com plantio direto de soja seguido de milho podem sequestrar, em média, 1,9 tonelada de dióxido de carbono por hectare ao ano.

Área com plantio direto. Foto: Foto: Bruno Lopes/Aprosoja MT
Além da captura de carbono, o aumento da matéria orgânica melhora a retenção de água, a disponibilidade de nutrientes e a atividade biológica do solo, fatores que contribuem para maior estabilidade das lavouras e menor dependência de correções frequentes.
“Durante a estiagem, o solo permanece coberto, permitindo que os micro-organismos sobrevivam por mais tempo. Também economizamos combustível, pois não é necessário usar maquinário para revolver a terra, evitando que a chuva leve a matéria orgânica”, conta Marlise Paetzold Marafon, produtora de Sapezal.
Produção sem expansão
Todos esses esforços convergem com a meta nacional de zerar o desmatamento até 2030, o que pressupõe aumento da produção nas áreas já consolidadas. O plano federal prevê ações integradas de diferentes ministérios para reduzir emissões e promover atividades produtivas sustentáveis, com ênfase em ciência e inovação.
“Conseguimos produzir mais em menos áreas, cada vez com maior eficiência, e isso evita que novas florestas precisem ser desflorestadas. Dessa forma, conseguimos atender a população com alimento de qualidade a um preço competitivo”, conclui o vice-presidente da Aprosoja MT, Luiz Pedro Bier.
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