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Fornecimento indireto é gargalo para transparência na cadeia da carne

Fornecimento indireto é gargalo para transparência na cadeia da carneEmpresas podem contribuir para aumentar transparência. Foto: Governo de Mato Grosso

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Por André Garcia

Mais de 90% de tudo que foi desmatado na Amazônia entre 2008 e 2021 está sobreposto às zonas de compra das 175 plantas frigoríficas localizadas no bioma. Nesta quarta-feira, 28/6, as empresas foram convidadas a participar de pesquisa do Radar Verde, indicador público de transparência na produção e comercialização de carne bovina no País.

Durante o lançamento do questionário, a pesquisadora Ritaumaria Pereira explicou que 56% da capacidade de abate dos frigoríficos da região está sob termos de ajustamento de conduta (TAC) firmados com o Ministério Público Federal (MPF).

Isso significa que eles não podem realizar transações com fornecedores diretos que tenham relação com desmatamento a partir de 2008, ou cujas propriedades sobreponham áreas protegidas. O gargalo, contudo, é o fornecimento indireto.

“Somente as áreas dos fornecedores diretos estão seguindo essas regras, o que resulta em uma lacuna na cadeia, que não consegue introduzir os fornecedores indiretos nos TACs. Então a gente não consegue rastrear toda a produção e identificar políticas e ações dos frigoríficos e varejistas”, pontuou.

A Amazônia concentra 43% do rebanho bovino do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e, atualmente, a criação de gado é o principal motor do desmatamento em seus estados. Para se ter ideia, cerca de 90% da área total desmatada está coberta por pastos e mais de 90% dos desmatamentos novos são ilegais.

“Há uma ênfase sobre as fazendas indiretas porque, segundo indicadores, é onde o boi passa a maior parte da vida antes de chegar ao abatedouro. Os poucos criminosos que sujam a cadeia da agropecuária são identificados nesta fase”, afirmou o pesquisador Alexandre Mansur.

A pesquisa

A segunda edição da pesquisa Radar Verde, idealizada pelo Instituto O Mundo que Queremos e pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), também é direcionada a 69 redes varejistas do Brasil. Para 2023, a metodologia conta com identificação do Grau de Exposição ao Risco de Desmatamento e Grau de Transparência Pública.

Em 2022, o Radar Verde convidou 90 frigoríficos e 69 redes varejistas a comprovar que suas políticas garantem que a carne que compram e vendem não está associada ao desmatamento na Amazônia. Nenhum deles demonstrou como evita o desmatamento, apenas 5% aceitaram participar e nenhum autorizou a divulgação de sua classificação final.

Para o cientista Carlos Nobre, o resultado revela o status do setor no Brasil. Durante o lançamento, ele também chamou a atenção para o papel do consumidor, que, diante dos números levantados pela pesquisa, pode atuar como um dos principais agentes na cobrança por uma cadeia responsável da carne.

“Tenho muita dúvida que o setor vai se encaixar nisso por si só. Há um poder político no Congresso que legaliza a ilegalidade. Por exemplo, o Novo Código Florestal de 2012 perdoou 58% de todo desmatamento realizado até 2008, e depois, isso já foi legalizado outras vezes”, disse.

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