Resumo:
- Rio Verde (GO) e Dourados (MS) lideram o ranking da Embrapa de municípios com maior risco de contaminação da água pela agropecuária, e 12 dos 21 com maior pontuação estão no Centro-Oeste.
- Sorriso, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste e Tapurah, em Mato Grosso, somam 9 pontos numa escala de 3 a 15 e estão entre os 15 municípios empatados na sétima posição nacional.
- O índice soma notas de uso de fertilizantes, tamanho dos rebanhos e área de cana com fertirrigação, a partir de dados públicos de 2021 e 2022.
- Apenas 55% do nitrogênio aplicado nas lavouras é absorvido pelas plantas, em média mundial, segundo a FAO, e a ureia subiu 40% ao produtor no período do conflito no Oriente Médio, segundo a CNA.
- A pontuação indica prioridade para monitoramento, não água contaminada, e a Embrapa recomenda plantio direto, rotação de culturas, análise de solo e agricultura de precisão.
Por André Garcia
Com os fertilizantes mais caros, a poluição difusa pode significar prejuízo duplo para o produtor: a chuva leva solo e adubo das lavouras para os rios, parte do insumo comprado se perde e a água usada na irrigação e pelo rebanho pode ficar comprometida. No Centro-Oeste, um dos principais polos agropecuários do País, o risco é maior.
De acordo com levantamento divulgado neste mês pela Embrapa Meio Ambiente e pela Embrapa Solos, 12 dos 21 municípios com maior risco no Brasil estão na região. Rio Verde (GO) e Dourados (MS) lideram a lista, que inclui Sorriso, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste e Tapurah (MT).
“Os governos estaduais e municipais dessas áreas de elevada produção agropecuária precisam investir esforços e recursos financeiros visando otimizar a utilização de fertilizantes”, alertam os pesquisadores em trecho da publicação.
Peso no bolso
Dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) reforçam o alerta. Levantamento divulgado em maio aponta que, no período do conflito no Oriente Médio, o preço da ureia ao produtor subiu 40% e o do MAP, 20%, enquanto soja e milho valorizaram menos de 1%.
No Brasil, o consumo de fertilizantes triplicou desde 1998, e soja e milho respondem por cerca de 63% do volume. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) mostram que apenas 55% do nitrogênio aplicado nas lavouras é absorvido pelas plantas, em média mundial.
“Isso significa que cerca de metade deste insumo é perdido para o meio ambiente, gerando poluição, desperdício e prejuízos econômicos”, afirmam os autores do estudo.
Onde o risco de contaminação é maior
Como mostrou o Gigante 163, o estudo cruzou dados de 2021 e 2022 sobre uso de fertilizantes, tamanho dos rebanhos e área de cana com fertirrigação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
Cada indicador recebeu nota de 1 a 5, e a soma chega a 15 pontos. Como o cálculo considera volumes totais, os grandes polos agropecuários pontuam mais, mas isso não significa, necessariamente, que a água esteja contaminada.
Na tabela do estudo, Rio Verde soma 12 pontos e Dourados, 11. Quirinópolis e Mineiros (GO) têm 10 e dividem o terceiro lugar. Os quatro municípios de Mato Grosso têm 9 e estão entre os 15 empatados na sétima posição.

Crédito: Embrapa
Rios de MT diluem o risco
O estudo traz ainda um segundo ranking, que leva em conta a fragilidade de cada município: se os rios têm água suficiente para diluir os nutrientes e se o solo é suscetível à erosão. Nesse recorte, Quirinópolis (GO) passa ao 1º lugar do país, por combinar muitas fontes de nutrientes com rios mais pressionados ou solo mais frágil.
Mato Grosso perde posições. Grande parte do estado tem disponibilidade de água considerada excelente pela ANA, o que ajuda a diluir o nutriente que chega aos rios. Sorriso, Lucas do Rio Verde, Primavera do Leste e Tapurah caem para perto do 776º lugar, mas continuam entre os municípios com muitas fontes de nutrientes.
Ameaça à irrigação e à pecuária
O adubo que escapa da lavoura também pode comprometer a água usada na produção. Em excesso nos rios e reservatórios, nitrogênio e fósforo favorecem a proliferação de algas, processo chamado eutrofização, que degrada a qualidade da água e pode torná-la inadequada para irrigação e para os animais.
Para o setor, que concentra 83% da demanda hídrica do país, proteger essa água começa na propriedade. Manter o solo coberto, plantar em nível, controlar a erosão e preservar a vegetação nas margens ajuda a evitar que terra e adubo cheguem aos rios.
“De um modo geral, são técnicas importantes para adoção na propriedade: rotação de culturas e Sistema Plantio Direto (SPD); aplicação equilibrada de fertilizantes no momento correto para evitar perdas por lixiviação ou volatilização; análise de solo e agricultura de precisão”, pontuam os autores.
Saiba mais
O que é fertirrigação? É a aplicação de fertilizantes junto com a água de irrigação. Na cana-de-açúcar, a prática usa principalmente a vinhaça, resíduo da produção de etanol rico em nutrientes, além de águas residuárias. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a fertirrigação está presente em 79,5% da área irrigada de cana no Brasil, o equivalente a 2,9 milhões de hectares. Em excesso, a vinhaça pode reduzir a produtividade das plantas e contaminar o lençol freático.
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