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El Niño: seca nos rios do Norte pode prejudicar preço de grãos

El Niño: seca nos rios do Norte pode prejudicar preço de grãos

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Como já mostrado pelo Gigante 163, com o fenômeno climático El Niño, a estiagem neste ano será mais severa, reduzindo o fluxo dos rios que levam barcaças de grãos aos portos do Arco Norte. A situação preocupa o agronegócio, já que pode causar uma baixa sobre os preços dos grãos.

Foi o que explicou ao Globo Rural, o diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), Glauber Silveira.

“O milho tem que dar espaço para a soja que será colhida em breve. O forte do carregamento do milho é de agora até dezembro. Se as chuvas demorarem, prejudica bastante o escoamento e pode prejudicar ainda mais a armazenagem”, disse.

Além disso, com os preços das commodities em baixa ao longo do ano, muitos agricultores atrasaram as vendas da produção, segundo o diretor-executivo do Movimento Pró-Logística da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Edeon Vaz Ferreira.

“Ainda tem soja para ser escoada. O volume não é tão expressivo quanto na safra, mas com esse problema, algumas cargas estão virando para o Sul e Sudeste. O que não conseguir subir [para os portos do Arco Norte] vai para Santos (SP) ou Paranaguá (PR). Vai ter aumento de custo, mas não tem como evitar. É ruim, pois aumenta o fluxo de caminhão na estrada e aumenta o custo, que neste momento quem banca é trading”, completou.

Segundo Ferreira, o transporte de grãos e outras cargas pelo rio Madeira diminuiu com a seca, e a expectativa é que se normalize em 60 dias. No entanto, ele não descarta a possibilidade de uma interrupção no escoamento pela hidrovia caso as chuvas esperadas não se concretizem.

“São muitos portos que recebem cargas do rio Madeira, o de Itacoatiara (AM), Santarém (PA), Vila do Conde (PA). Tem transporte de grãos de empresas como Cargill e Amaggi, soja e milho”, estimou.

Questionada, a Cargill informou que suas operações no Arco Norte seguem normalmente, sem nenhum impacto da seca. A Amaggi informou que em todos os anos faz adaptações em suas operações em função do processo natural de baixa no nível do rio Madeira.

“A Amaggi segue rigorosamente as orientações da Marinha do Brasil quanto às condições de navegabilidade nesse rio”, afirmou a empresa por meio da assessoria, destacando que as adaptações das operações seguem dentro da normalidade neste ano.

A Caramuru, que também opera na região, informou que seu escoamento é feito pelo rio Tapajós-Amazonas. “Nossas operações não sofreram nenhuma interrupção nesse trecho”.

Para Flávio Acatauassú, diretor-presidente da Associação de Terminais Portuários e Estações de Transbordo de Cargas da Bacia Amazônica (Amport), o efeito do El Niño também parece estar menos rigoroso que há cinco anos, quando ocorreu o fenômeno climático pela última vez.

“Nossa medição de réguas nos rios mostra que a seca não está tão severa. Os rios têm baixado entre 10 e 15 centímetros diariamente, mas hoje, por exemplo, o rio Madeira diminuiu apenas 1 centímetro”, disse à Globo Rural.

Segundo ele, para as empresas, a restrição maior ocorre entre Itacoatiara e Santarém onde o calado do rio Madeira passou de 3,5 metros para 2,60 metros e o peso das mercadorias nos comboios de barcaças precisou ser reduzido em 25%.

“As nascentes do Madeira estão nos Andes e elas sofrem mais com o El Niño. Já as do Tapajós, estão dentro do Brasil, em Mato Grosso, e estão mais volumosas”, afirmou Acatauassú. “Todas as barcaças estão passando e não há entrave na exportação de mercadorias”, acrescentou.

Neste momento, o escoamento de produtos agrícolas restringe-se ao milho. Mas o volume já transportado não foi contabilizado pela Amport, tampouco os prejuízos com o menor peso nas bargaças. “Temos que esperar acabar a seca e comparar com o ano passado. Porque nem podemos comprar com 2018, último ano do El Niño, porque os terminais eram menores e o transporte de grãos pelo Arco Norte também. Então, o número ficará discrepante de qualquer maneira”, disse o executivo.

Para melhorar o problema no rio Madeira, ele contou que esteve ontem na Capitania Fluvial de Santarém para solicitar mudança na obrigatoriedade da folga da quilha dos barcos. A Marinha brasileira exige normalmente 50 centímetros de distância entre a quilha e o berço do rio e eles pedem 30 centímetros até o dia 15 de novembro, quando as chuvas deverão voltar ao regime normal. “São ações que minimizam o impacto da seca.”

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