HomeProdutividade

Ameaça da seca: 6 passos para evitar prejuízos com o rebanho

Ameaça da seca: 6 passos para evitar prejuízos com o rebanhoSeparar o rebanho é uma das principais medidas. Foto: Bruna Helena de Campos/IPA

MT lidera ranking de produção agropecuária do país, diz Mapa
Baixa produtividade pecuária pode ser revertida com práticas para mitigação de GEE
Exportação de carne bovina de MT cresce 42%

Resumo:

  • Com a possibilidade de um El Niño muito forte e uma seca mais longa, o produtor precisa agir rápido para evitar que o gado perca peso e atrase as vendas
  • Separar o rebanho por categoria é uma das iniciativas que o produtor deve tomar. A outra é ajustar a quantidade de gado no pasto e acertar o suplemento correto. Vedar o capim e estocar alimentos com antecedência também evitam gastos imprevistos e prejuízo. E, por fim, vender animais, se necessário.

Por André Garcia

A seca deste ano pode ser mais longa que a de costume, com 81% de chance de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro. Para o gado, isso pode significar capim mais pobre e perda de peso. Para as contas do produtor, recria mais lenta, reprodução atrasada e boi vendido fora do prazo.

Mas decisões tomadas a tempo permitem atravessar esse período sem perder produção. Em palestra realizada pelo Senar-MS, o supervisor de campo da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) em Bovinocultura de Corte e especialista em nutrição de bovinos de corte, Andrei Pereira Neves, mostrou alguns caminhos para isso. Confira:

1. Separar o rebanho por categoria

Vaca de cria, novilha em crescimento, animal em terminação e fêmea em lactação têm exigências diferentes, e tratar todos como lote único significa acertar a dieta de uma categoria e errar a de todas as outras. É a medida mais barata e a primeira recomendação de Andrei para quem está com o orçamento apertado.

“A exigência de uma vaca de cria é totalmente diferente da exigência de uma novilha que eu estou engordando. A mesma suplementação, a quantidade e o tipo de alimento não servem igual para todo mundo, então eu preciso categorizar isso dentro da propriedade”, afirmou.

A separação também permite decidir melhor o resto do processo. Sem saber quantos animais de cada tipo existem na propriedade, não há como calcular suplemento, reserva de volumoso nem lotação.

2. Ajustar a lotação

Na seca a capacidade de suporte da pastagem é bem menor que no período das águas, por isso é preciso reduzir a lotação. Sem esse equilíbrio, falta capim, o animal perde peso, a forrageira é pastejada além do limite e a área entra em degradação. O ajuste começa ainda no período de transição, quando o capim sementeia e amarela.

“Quando eu quero aumentar a lotação e não quero apertar o capim, preciso trabalhar com níveis de suplementação médios para cima. Senão não tem jeito: o capim vai sentir os animais e pode chegar um momento em que ele acaba. Aí o suplemento não vai conseguir sustentar, porque a base de tudo é o capim”, disse.

3. Acertar o suplemento

No capim seco o suplemento mineral sozinho não sustenta produção, porque falta a proteína que o animal precisa. Abaixo de 8% de proteína bruta, os microrganismos do rúmen param de quebrar a fibra e o animal reduz o consumo mesmo com pasto na frente dele. A correção passa por uma fonte proteica, e o produto vai depender do objetivo definido para cada categoria:

  • Manutenção do peso: sal mineral com ureia.
  • Ganho moderado: proteinado.
  • Ganho médio a alto: proteico energético.
  • Terminação: ração em autoconsumo.

“Não tem um suplemento milagroso, que serve para tudo. O que a gente sempre recomenda é procurar um técnico responsável e, junto com o objetivo dele, procurar o suplemento específico para aquele tipo de animal”, resumiu Andrei.

4. Vedar o capim

Outra estratégia citada por ele é o diferimento, ou vedação: isolar uma área de pasto no fim das chuvas e deixar o capim acumular massa para o gado comer na seca. É o que o produtor chama de feno em pé.

A Embrapa recomenda tirar o gado e fechar a área de 30 a 40 dias antes de as chuvas cessarem. Além disso, a orientação é escalonar: vedar um terço da área em fevereiro, para uso no início da seca, e os outros dois terços em março, para o restante da estiagem.

5. Estocar alimento

Também é preciso decidir como o alimento vai chegar ao cocho. Silagem rende mais, mas exige máquina e trabalho todo dia. Feno pode ser apenas jogado no pasto, mas sai mais caro por quilo de matéria seca. Escolhida a forma, escolha a planta: milho onde o solo é bom e a chuva regular, sorgo, milheto ou capiaçu no resto.

“Quando a seca bate na porta, já é tarde demais. Isso gera custos que não são esperados, e o animal, em vez de estar ganhando, só está apagando incêndio. Muitas vezes está até perdendo peso”, disse.

6. Vender pode ser a decisão certa

Nem toda propriedade consegue executar os seis passos no mesmo ano. Se a conta não fecha, vender parte do rebanho antes do aperto ou arrendar área é estratégia legítima, desde que decidida com antecedência, quando o preço ainda é bom e existe comprador.

“Se eu vejo que realmente não vou conseguir, chego em determinado momento antes da seca e faço a venda de animais para passar o período, e depois recupero”, avalia Andrei.

Estiagem sem prejuízo

Para 2026, a vedação do pasto e a estocagem de alimento já perderam a janela. Mas Andrei reforça que a estiagem de 2027 começa a ser enfrentada agora.

“Hoje a gente já está com a seca de 2026 na porta, mas eu já tenho que estar pensando na próxima. Essas estratégias eu preciso começar logo em seguida, no período das águas, ainda no fim deste ano, para ter resultado na próxima safra”, concluiu.

Saiba mais

O Senar/MS realiza no dia 23 de julho palestra sobre alimentação de animais na seca, desta vez com foco em produção de volumoso. A transmissão é aberta, e produtores podem acompanhar pelos polos ou procurar o sindicato rural do município.

 

LEIA MAIS:

El Niño 2026: Inmet alerta para seca no Centro-Oeste

El Niño pega agro com a menor proteção do seguro rural em 20 anos

Seca responde por 80% das perdas históricas nas lavouras de MS

Manejo e diversificação “blindam” pasto durante El Niño

El Niño: veja como proteger rebanho e evitar perdas na reprodução

Grupo de trabalho vai avaliar impacto do El Niño sobre o agro