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Produção de soja por si só não garante desenvolvimento de municípios, diz pesquisa

Produção de soja por si só não garante desenvolvimento de municípios, diz pesquisa

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Por Vinicius Marques

Não dá para dizer que os efeitos da produção de soja na qualidade de vida das regiões produtoras obedeça um único padrão. A opinião é Arilson Favareto, coordenador do Centro Brasileiro de Análise e Desenvolvimento (Cebrap), que participou de um webinário na terça-feira, 15/02, sobre o relatório ‘Campeões em produção, campeões em desenvolvimento? Uma análise dos indicadores socioeconômicos em territórios de produção da soja no Brasil‘.

“Estamos falando de um setor que tem uma importância inegável”, afirma Favareto. “É um setor que responde por dezenas de milhões de dólares no valor das exportações brasileiras, tremendamente importante para a economia do país. Justamente por isso nós precisamos avaliar de maneira criteriosa quais são as consequências positivas e negativas desse setor.”

O estudo, desenvolvido pelo Cebrap Sustentabilidade e pela  Universidade Federal do ABC, analisou diferentes recortes de municípios produtores de soja, utilizando seis índices: de renda, desigualdade, pobreza, número médio de anos de estudo, desemprego e mortalidade infantil. Um dos principais pontos que se destacaram nos resultados da pesquisa foi a heterogeneidade; ou seja, o que garante o progresso (ou retrocesso) social, econômico e de saúde do município é muito mais complexo que a mera presença da plantação de soja.

“Por exemplo, não dá para dizer que o desmatamento do Brasil hoje, relacionado em grande medida à expansão do setor, seria uma espécie de custo do progresso, porque não há um progresso generalizado e garantido nas regiões produtoras”, aponta o coordenador da Cebrap.

Da mesma maneira, a pesquisa revelou que a soja também não é isoladamente culpada pelo retrocesso regional. Ao observar os municípios produtores do grão, obteve-se  um desempenho ambíguo: 46% deles apresentaram um desempenho neutro (maior que a média do estado em três dos seis indicadores e abaixo da média na outra metade); 33% tiveram desempenho inferior em pelo menos dois terços dos indicadores e em 21% foi encontrado desempenho superior à média do estado

Ao se trabalhar apenas com os 20 maiores produtores nacionais da monocultura, os resultados foram similares. Treze municípios revelaram resultados medianos,  quatro mostraram indicadores negativos e em três, os índices foram positivos.

“Isso é um convite para que a gente aprofunde o entendimento das questões para além da mera posição de ser a favor ou contra [as grandes plantações de soja]. Precisamos entender melhor esse tipo de dinâmica”, explica Favareto.

A heterogeneidade indica que deve ser observada não só a presença ou não da soja, mas também o que acontece com a dinâmica da produção, associada a características do tecido social dos territórios onde ela acontece. A monocultura se dá em grandes ou pequenas propriedades? Há o respeito com variáveis ambientais? Ela está acompanhada de outras atividades econômicas regionais que dê conta do desemprego setorial causado pela intensificação tecnológica? Esses são alguns dos questionamentos que auxiliam a entender a contribuição da soja para a evolução do município.

“O futuro dos mercados internacionais tende a elevar os padrões de exigência sobre as condições ambientais e sociais nas regiões produtoras. Isso vai repercutir sobre as formas de organização do comércio externo. Os acordos internacionais, as regras de exportação entre países e blocos econômicos, as condições de financiamento, a emergência do ESG  (sigla em inglês para “Environmental, Social and Governance”, que, em tradução livre, significa “Ambiental, Social e Governança”) e a evolução das certificações dão sinais claros nessa direção. Os segmentos que souberem se antecipar e se adaptar terão vantagens”, conclui  Favareto.

Para ele, o agronegócio não pode ser visto como um bloco só, uma massa que pensa e age de forma hegemônica.  Ele afirma que existem, por exemplo, pessoas ou empresas que vivem de especulação imobiliária, que lidam com a ocupação da terra, convertendo-a em fator de dominação, e nem deveriam ser chamadas de agronegócio. Há aqueles que acreditam que os ambientalistas são contra o agro; outros que são absolutamente pragmáticos, ou seja, se houver pressão de financiadores, consumidores e se houver instrumentos financeiros e de políticas públicas que favoreçam um comportamento mais positivo, eles embarcam.

“E há um segmento, ainda em minoria, que é mais avançado e está percebendo o seguinte: tendo ou não o ganho econômico em curto prazo, nós temos que incorporar essa discussão (questões ambientais e sociais) na nossa prática. Porque é por aí que os mercados internacionais estão indo”, diz.

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