HomeEconomiaProdutividade

Alternativa para crise dos fertilizantes cresce no solo brasileiro

Alternativa para crise dos fertilizantes cresce no solo brasileiroAlém da autonomia, os benefícios são ambientais e econômicos. Foto: Freepik

Após mudanças em texto, Câmara aprova regulação de bioinsumos
Empresas lucram enquanto produtor tenta driblar preço de defensivos
Nova Lei dos Agrotóxicos dificulta produção própria de bioinsumos

Por André Garcia

O Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025. Quase tudo vindo de países vulneráveis a guerras, sanções e variações cambiais. A alternativa a essa dependência existe: está no solo, nos microrganismos e nos resíduos orgânicos que o Brasil produz e ainda não sabe aproveitar em escala.

Soluções vêm sendo construídas. Segundo dados apresentados durante o BioSummit 2026, realizado em maio em Campinas, a área tratada com essas tecnologias chegou a 194 milhões de hectares em 2025, quatro vezes a média global. A taxa de adoção passou de 22% para 47% em apenas cinco anos.

As versões já disponíveis vão além da fixação de nitrogênio. A Embrapa apresentou na AgroBrasília, nesta semana, um portfólio que inclui biofertilizantes desenvolvidos com extrato vegetal e alga marinha, voltados para soja e milho, além de microrganismos que podem ser multiplicados nas próprias fazendas, reduzindo custos.

“Se o agricultor pode produzir seu próprio bioinsumo, ele deixa de ser refém do preço que a indústria decide cobrar”, resumiu Reginaldo Minaré, advogado e diretor-executivo da Associação Brasileira de Bioinsumos (Abbins), em artigo publicado recentemente.

Menos emissões, mais eficiência

Além da autonomia, os benefícios são ambientais e econômicos. De acordo com a Embrapa, a produção de um quilo de defensivo químico emite entre 20 e 25 quilos de CO₂ equivalente. Um quilo de bioinsumo emite entre 3 e 5 quilos, uma diferença de até oito vezes.

“Precisamos olhar para o solo como um sistema vivo. A matéria orgânica funciona como um grande resort ‘all inclusive’ para os microrganismos, aumentando a atividade metabólica, a ciclagem de nutrientes e criando um ambiente mais equilibrado para o desenvolvimento das plantas”, diz o engenheiro agrônomo Brener Magnabosco Marra.

O País já registrou 277 produtos biológicos utilizando apenas duas cepas de microrganismos. Essa biodiversidade microbiana representa um potencial de inovação que nem a pesquisa pública nem o setor privado conseguiram ainda mobilizar em escala.

Multinacionais ocupam lacuna de mercado

Se os bioinseticidas e biofertilizantes já têm mercado consolidado, uma frente permanece praticamente inexplorada comercialmente: os bioherbicidas — produtos naturais capazes de controlar plantas daninhas sem química sintética. É exatamente o elo que faltaria para completar a alternativa ao modelo atual.

Até hoje, não há bioherbicidas disponíveis comercialmente no mercado nacional, o que, como já mostramos, abre uma brecha para as multinacionais que vendem herbicidas químicos.

Regulamentação ainda trava avanço

A Lei dos Bioinsumos foi aprovada em dezembro de 2024 — a Lei nº 15.070 —, após anos de debate no Congresso. Deveria ser uma vitória definitiva. Mas desde então aguarda regulamentação, e é exatamente nesse processo que a batalha mais importante está sendo travada.

Segundo Minaré, o lobby da grande indústria química atua nos bastidores para que os detalhes da regulamentação inviabilizem a produção on-farm e a entrada de pequenas e médias empresas no mercado, impondo aos bioinsumos o mesmo modelo de negócio dos agrotóxicos: concentrado e com margens elevadas.

“Consolidar no Brasil o direito de o agricultor produzir bioinsumos para uso próprio é perigoso para os elevados lucros anuais de diversas empresas, pois a produção de bioinsumos para uso próprio além de permitir a autonomia dos agricultores funciona como um autorregulador de preços”, escreveu o diretor-executivo da Abbins.

Ou seja, o país que mais consome agrotóxicos no mundo tem, nas mãos, a tecnologia para mudar esse quadro. E uma lei que garante esse direito. O que ainda falta é tirar a solução das mãos de quem lucra com o problema.

 

LEIA MAIS

Resistência de pragas faz Brasil dobrar uso de herbicidas

Com guerra, uso de fertilizantes deve cair 2 milhões de toneladas no Brasil

Fertilizantes importados corroem margem da soja

Setor da soja discute agricultura regenerativa para reduzir custos

Crise do enxofre acelera avanço dos bioinsumos no agro

Bioinsumos podem atingir 50% do mercado até 2050

Bioinsumos podem poupar R$ 140 bi por safra, diz especialista

Bioinsumos viram prioridade na agenda agrícola

Entenda como bioinsumos podem reduzir custos de produção em até 30%

Margens apertadas e guerra devem reduzir área da soja na safra 26/27

Guerra no Oriente Médio encarece a conta para o produtor brasileiro